sexta-feira, 25 de julho de 2008

O PETRÓLEO, SEMPRE O PETRÓLEO

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Há muitos anos, antes da chegada da electricidade à casa dos pobres, na minha terra, lá na Pátria alentejana, contava-se que uma certa mulher adúltera, ao aperceber-se que o marido acabava de entrar em casa - e para não ser apanhada em flagrante delito- lhe gritou do quarto onde 'pecava': «Zéi, não te descalces que tens de ir ao petróleo».



Lembrei-me desta estória a propósito de recentes viagens do 'nosso Primeiro' ao estrangeiro: Rússia, Venezuela, Angola, Líbia (esperemos que esteja para breve uma viagem de retribuição à Guiné Equatorial).



Sendo acontecimentos tão díspares, associei-os por terem duas coisas em comum: o petróleo e a infidelidade. Dela, ao marido; dele, a certos princípios.



PM

DE OUTROS - 5

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«Jusqu'en 1981, la gauche évoquait son histoire, l'enseignait, parfois s'en faisait gloire. À présent tous ces souvenirs la gênent, et surtout les plus forts. Pour être plus légère, la gauche se dandine nue.»

SERGE HALIMI

«QUAND LA GAUCHE ESSAYAIT»
ARLÉA

Até 1981, a esquerda evocava a sua história, ensinava-a, por vezes vangloriava-se dela. No presente todas estas recordações a incomodam, e sobretudo as mais fortes. Para ser mais ligeira, a esquerda bamboleia-se nua.

PM

QUEM ME AJUDA?

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Recentemente, a nossa querida RTP lembrou-se de pôr no ar um programa, misto de entretenimento e concurso, destinado a 'eleger' a figura mais importante da História de Portugal . Nem mesmo a participação de pessoas inteligentes (por algumas delas tenho respeito intelectual) foi suficiente para me convencer a ver o programa, mas soube o resultado final: ganhou Salazar.

Pouco tempo depois, um grupo editorial, proprietário do «Correio da Manhã» e da «Sábado», lançou «Os Anos de Salazar», obra em trinta volumes a aparecer ao longo de outras tantas semanas. Os nomes dos colaboradores deram-me garantias quanto à qualidade do trabalho e aí estou eu a desembolsar oito euros todas as quintas-feiras.

Como não quero, em nenhuma circunstância, ser confundido com nenhum 'eleitor televisivo' de Salazar, quando peço o livro na tabacaria do meu bairro, acrescento sempre ao nome do ex-governante uma palavrinha 'simpática': ditador, fascista, manhoso, misógino, padreca, bota-de-elástico, farsante, papa-hóstias, colonialista, abjecto, hortelão, racista, homúnculo, torcionário, hipócrita, celerado, retrógrado, algoz, genocida, carrasco, facínora, necófrago.

Acontece que ainda faltam oito volumes e a minha memória vocabular já não é o que era. Não querendo utilizar a linguagem casernícola que aprendi nos anos da tropa, alguém por aí me arranja oito adjectivos dignos do 'Botas'?

PM

quarta-feira, 23 de julho de 2008

DE OUTROS - 4

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«On se trompe chaque fois que l'on veut expliquer quelque chose en opposant la Mafia à l'État: ils ne sont jamais en rivalité. La théorie vérifie avec facilité ce que toutes les rumeurs de la vie pratique avaient trop facilement montré. La Mafia n'est pas étrangère dans ce monde; elle y est parfaitement chez elle. Au moment du spectaculaire intégré, elle règne en fait comme le 'modèle' de toutes les entreprises commerciales avancées».

GUY DEBORD

«COMMENTAIRES SUR LA SOCIÉTÉ DU SPECTACLE»
FOLIO

Tradução (e desculpem qualquer coisinha):

Enganamo-nos sempre que queremos explicar qualquer coisa opondo a Máfia ao Estado: eles nunca rivalizam. A teoria verifica com facilidade o que todos os rumores da vida prática tinham muito facilmente mostrado. A Máfia não é uma estranha neste mundo; sente-se nele perfeitamente em casa. No momento do espectacular integrado, ela reina de facto como o 'modelo' de todas as empresas comerciais avançadas.
PM

A GRAÇA DE SER POBRE

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A revista «Pública» é uma 'coisa' que serve, basicamente, para encarecer a edição de domingo do jornal «Público». Contudo, muito espaçadamente, lá vem uma crónica, um artigo, uma reportagem que merecem uma leitura atenta.

A edição do passado dia 6 de Julho 'aliciou-me' para as compras. Assim:

1 Bugatti Veyron - 1.000.000,00 de euros
1 relógio Chopard - 16.000.000,00 de euros
1 telemóvel Goldvism 'Le Million' - 1.000.000,00 de euros
1 cocktail Dazzle ( com opção azeitona ou anel de diamantes) - 32.500,00 euros
1 maço de cigarros Lucky Strike - 100.000,00 euros
1 biquini Susan Rosen - 19.000.000,00 de euros
1 noite no hotel Hugh Hefner Sky Villa - 26.000,00 euros
1 quilo de batatas La Bonnotte - 500,00 euros.

Eu, que «devo à Providência a graça de ser pobre» (tal como António Oliveira, o 'Botas', autor da frase), antes de me precipitar nas compras, 'aconselhei-me' com o horóscopo que a dita revista também publica e foi grande a minha decepção: «Apesar da influência tranquilizante do Papa, esta não é uma semana em que possa contar com facilidades. No plano material encontrará vários obstáculos a projectos e ideias».

Adiei as compras mas tomei uma decisão: em Dezembro, com o subsídio de Natal, vou comprar 100 gramas de batatas «La Bonnotte». E depois da ceia de Natal agradecerei à Providência a graça de ter comido uma rica batata.

PM

LE FROMAGE LIMIÁNÔ

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Pelos vistos, continuam a correr bem as exportações portuguesas de queijo «Limiano» para França. Depois de Bernard Kurchner ter aceite o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros no governo do senhor Nicolas Sarkozy, é agora a vez de Jack Lang, destacado militante e reputado intelectual socialista, viabilizar com o seu voto na Assembleia Nacional a reforma das instituições francesas proposta pelo marido da cantora Carla Bruni e que visa reformar os poderes do parlamento e limitar a dois os mandatos do presidente da República.

«É uma grande vitória para a democracia», afirmou Nicolas.

«Traidor», disse Ségolène Royal, referindo-se ao ex-ministro da Cultura, Jack Lang.

«Viva o queijo «Limiano». Digo eu que sou um simplório mas gosto de ver os bons exemplos portugueses seguidos «lá fora».

PM

segunda-feira, 21 de julho de 2008

FAITS DIVERS

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É sabido que as «Relações Internacionais» existem sem grandes preocupações éticas. Em muitos países (em Portugal, por exemplo) os ministérios que delas se encarregam são mesmo denominados de «Negócios Estrangeiros». E no mundo dos negócios a ética é um conceito de valor desprezível.

É corrente vermos um estadista impoluto (espécie em vias de extinção como o lince da malcata, mas da qual também existirão, em todo o mundo, meia-dúzia de exemplares) cumprimentar um cleptocrata, um «Prémio Nobel da Paz» cumprimentar um genocida. Umas palavrinhas de circunstância e já está.

Dizer: «Temos confiança no governo angolano e no trabalho que tem desenvolvido, o que tem permitido que Angola tenha hoje um prestígio internacional, que tenha subido na consciência internacional e que seja hoje um dos países mais falados e mais reputados» como disse, há dias, José Sócrates é ir muito para além das palavras de circunstância e atingir o elogio subserviente.
(Remorsos de ex-colonizador? Preço do barril de petróleo? Tudo junto e algo mais?).

Organizações como a Transparency International, Human Rights Watch, Amnistia Internacional consideram Angola um dos países mais corruptos do mundo e esta última, no seu relatório de Setembro de 2007, entre outras coisas pouco abonatórias das práticas do poder angolano, afirma: «Um facto que preocupa seriamente a Amnistia Internacional é que o poder legislativo não tenha adoptado legislação que proíba e penalize claramente a tortura, os maus tratos e outros tratos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes».

Para um país «dos mais reputados» não está nada mal. Ou devemos considerar «faits divers» a corrupção e todo o tipo de atropelos aos direitos humanos e, então, perceber melhor as palavras do nosso (salvo seja) primeiro-ministro?

PM

segunda-feira, 23 de junho de 2008

OS CAMINHOS DA EUROPA

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Quando o senhor Jorg Haider chegou ao poder na Áustria (o que aconteceu há pouco mais de meia-dúzia de anos), a comunidade internacional ficou sobressaltada, atendendo à confessada simpatia do cidadão pelo pensamento de um senhor chamado Adolfo Hitler.

A União Europeia (então a quinze) exerceu forte pressão sobre a Áustria e chegou mesmo a suspender as relações bilaterais com Viena.

Como os tempos se mudam e as vontades também, temos, hoje, a União Europeia dos senhores Sarkozy, Berlusconi, Barroso, Sócrates e parceiros de semelhante estatura política e moral a aprovar leis de imigração (com os votos favoráveis de muitos euro-deputados portugueses cujos nomes voluntariamente omito, mas que a História registará) que podem transformar a Europa numa espécie de 'guantánamo' de brandos costumes. E o senhor Haider, cínico e friamente vingativo, mas sempre simpatizante do velho chanceler alemão, a esfregar as mãos e a constatar: «E hoje vemos que temas que abordámos na altura (política de imigração, política de integração, fundamentalismo islâmico) e pelos quais fomos duramente condenados, entraram para a agenda política da União Europeia».

Porreiro, pá!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

ABBUSOS

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Li, há dias, no «Público» que o deputado algarvio Mendes Bota criticou a expressão «Algarve espanhol» que consta num anúncio de um clube de golfe de Ayamonte e quer saber se o Governo português já tomou alguma iniciativa judicial para proteger o nome do Algarve «já abusado em tempos para efeitos imobiliários».

Leio, hoje, na primeira página do «JL»: «ALLGARVE, um banho de arte». Procuro no interior do jornal e, a páginas seis, descubro que «o Ministério da Economia, o Turismo de Portugal e a Fundação Serralves dinamizam várias exposições em Faro, Lagoa, Lagos, Loulé e Portimão, que prometem conjugar as delícias do sol e o prazer da descoberta. O «JL» mergulhou no programa Allgarve, e descreve-lhe com que cores e formas se faz este banho de arte.»

E, entre o Algarve espanhol e o Allgarve desta gente impenetravelmente estúpida que domina a vida política portuguesa, entre o «chico-espertismo» de Ayamonte e o «português» de Wall Street (ou o «inglês» da Covilhã?), venha o diabo e escolha.

PM

DE OUTROS - 3

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«A esquerda não possui ideias de seu porque deixou de ler, de estudar, de reflectir, de analisar. Ajeitou o pretenso discurso a essa anomalia política, designada por «pragmatismo», e impôs a sua definição de democracia ao funcionamento dominante do capitalismo.»

BAPTISTA-BASTOS

Diário de Notícias (18.06.2008)

domingo, 15 de junho de 2008

DEMOCRACIAS A PRETO E BRANCO

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O democrata Robert Mugabe aceita os resultados das eleições no Zimbabwe ... desde que ganhe. Caso contrário, voltará à guerra e, até lá, vai praticando a violência e enchendo as prisões de opositores.

Os professores europeus de democracia, habituados que estão a dar, da dita, lições a todo o mundo, querem, agora, ensinar os irlandeses a votar referendos. Podem votar as vezes que forem necessárias até que os resultados sejam do agrado dos primeiros. Mas em tempo útil. Caso contrário - rua!

Não percebem nem querem perceber que o resultado da consulta na Irlanda é "uma vitória da liberdade e da razão sobre a burocracia europeia e os projectos elitistas e artificiais", como assinalou o presidente checo Vaclav Klaus.

Dois continentes, duas cores e um mesmo e estranho conceito de democracia. E é com isto que temos de (con)viver.

PM

terça-feira, 10 de junho de 2008

O DIA DAS RAÇAS

Desde que me conheço (e já lá vão muitos anos) que ouço falar em raças.

Lembro-me, perfeitamente, daquelas vacas gordas (e isto em tempo de vacas magras) de "raça charolesa" e do sucesso que tiveram nas passerelles das feiras de gado.

Lembro-me, perfeitamente, dos cães de "raça pastor alemão" aos quais, injustamente, se associava uma certa intolerância aos judeus, homossexuais, comunistas e ciganos.

Lembro-me, perfeitamente, de uma colecção de cromos das "raças humanas" e das dificuldades que tive para completar o álbum - naqueles envelopes pequeninos de três cromos nunca me saía aquele preto (como não sou racista, vou alterar) nunca me saía aquele cidadão do mundo, de origem africana, que esticava o lábio inferior até nele conseguir introduzir um prato.

Lembro-me, perfeitamente, do dia da "Raça" com comendadores vivos e heróis, por vezes, mortos.

Lembro-me, perfeitamente, de, então, chamar a um algarvio reaccionário "algarvio de má raça".

Só não me lembro por que razão me lembro disto, hoje.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

DE OUTROS - 2

«O que perde o futebol não é o jogo propriamente dito, mas todo o barulho que se faz à volta dele. É impossível a gente alhear-se do futebol, falado, comentado, transmitido, relatado, visto, ouvido, apostado, gritado, uivado, ladrado, festejado, bebido. O futebol passa deste modo a ser uma chateação permanente. É que não há tasca, pastelaria, salão de jogos, barbearia, recanto de jardim público, quiosque, bomba de gasolina, restaurante, Assembleia da República, supermercado, hipermercado, livraria, loja, montra, escritório, colégio, oficina, fábrica, habitação, diria até, onde, de algum modo, não se ouça falar do jogo que decorre, decorreu ou decorrerá».

ALEXANDRE O'NEILL

«JÁ CÁ NÃO ESTÁ QUEM FALOU»
(Assírio & Alvim - 2008)

sábado, 7 de junho de 2008

ENTÃO, ATÉ 2018

«1968 foi uma revolta planetária. Se pensamos no fim dos anos 1960, descobrimos uma revolta no Leste como no Ocidente, no Sul como no Norte. Praticamente por toda a parte, somos confrontados com revoltas, ocupações de universidades ou de liceus, manifestações. A prova está em que se hoje fizerem um livro, é suficiente pôr dois algarismos na capa: 6 e 8 -68- e, automaticamente, as pessoas, seja na Turquia, na América latina, em Praga ou em Varsóvia, em Paris ou em Berlim, em Nova Iorque ou em S. Francisco, em Sarajevo ou no Rio, pensam imediatamente em 1968, na revolta do fim dos anos 1960. É isso que é preciso compreender».

DANIEL COHN-BENDIT

In:
FORGET 68

L'Aube (2008)
Entrevistas com Stéphane Paoli e Jean Viard


Livro imperdível que, lamentavelmente, não está traduzido em português.

PM

sexta-feira, 6 de junho de 2008

DE OUTROS - 1

Do «Diário Inédito» de Vergílio Ferreira (Bertrand):



Évora, 2 de Julho (1948)



Cresce-me para o interior o couro duro que me reveste. Não sei o que me fique de dócil cera, pronta a acusar a presença do acontecer da vida. De tal modo que, em certos dias, a imbecilidade, a traição, a hipocrisia, todas as vilezas humanas deixam-me indiferente. Procuro-me, aflito, e não me encontro para reagir. É como se vivesse sem sentidos ou os sentidos me fossem fria resistência passiva de sete fortes de cimento armado, sem armas de combate.

VELHARIAS

Publiquei esta crónica no semanário «Ponto», em Abril de 1981. Tem uma história curiosa que mete uma livraria no Cais do Sodré, um tradutor de russo, Barcelona e Blaise Cendrars (mais pormenores só por telefone ou à mesa de um café com espaço para fumadores).
Reli-a, agora, e aqui fica ressuscitada:


MAIAKOWSKI EM ÁFRICA

Maiakowski viajou comigo para África. Explico: numa manhã chuvosa de Março de 71
embarquei no «Niassa» que foi paquete e acabou transporte de carne para canhão. Des-
tino: Bissau, capital da Guiné e da guerra colonial. Na bagagem, além dos camuflados,
alguns (poucos) livros. Recordo um: «Autobiografia e Poemas», de Maiakowski, com
edição recente em Lisboa e que não faria a viagem de regresso.

Um livro num trilho de mata africana não era achado vulgar. Uma armadilha? Pre-
cauções redobradas e, finalmente, a certeza: perdido pelas guerrilhas um belo livro
de poemas de Nicolas Guillen, «Antologia Mayor», Ediciones Huracan, La Habana,
1969. Para mim, uma prenda inesperada que me proporcionaria umas horas de agra-
dável leitura. Recordo:

Soldado no quiero ser,
que así no habrán de mandarme
a herir al niño y al negro,
y al infeliz que no tiene
qué comer.
Soldado así no he de ser

Quando voltei a passar pelo mesmo trilho e para mostrar a Maiakowski que nem toda
infantaria ardia no desejo da vitória assassina, deixei o poeta da Revolução Soviética
no mesmo sítio onde encontrara o poeta da Revolução Cubana.
Dias passados, e após um dos muitos ataques ao aquartelamento, os pelotões de re-
conhecimento encontraram, espetado numa palmeira, um papel onde alguém escre-
vera a lápis:

Eis-me quite contigo.
E é inútil o passar em revista
penas,
azares,
e recíprocas feridas
MAIAKOWSKI

No quartel, ninguém percebeu.

PM

quarta-feira, 4 de junho de 2008

TURISMO DE QUALIDADE

Um hipotético turista cubano, segundo Senel Paz («No Céu com Diamantes»):

«Se pudesses viajar, disse-me um, aonde é que tu gostavas de ir? Bem, primeiro a Espanha, para comer fabada; depois ao México, para comer tacos e queijadas; depois ao Brasil, para provar as feijoadas, e a seguir, já de barriguinha cheia, a França e a Itália para ver monumentos».

DIFERENÇAS

António Guerreiro sobre o livro «A Terceira Mão», de Manuel Gusmão (Expresso de 19 de Abril de 2008). Extractos:
- «Metaforicidade política;
- «Significado meramente conteudístico, «gnómico» (...) venha inscrever-se de maneira mimética e se quebre a síntese»;
- «Introduzir uma temporalidade, à primeira vista paradoxal, de um «futuro outrora»;
- «O carácter dialógico do discurso»;
- «O eu lírico e da asserção subjectiva foi erradicado (e também o «pathos» que lhe corresponde».

Francisco José Viegas (CM de 4 de Junho de 2008). Transcrição integral:
«Leiam, leiam, leiam: «O Herói das Mulheres», de Adolfo Bioy Casares (edição da Cavalo de Ferro). Elegância argentina, humor de Buenos Aires, um clássico indispensável e delirante - e a lembrança de Jorge Luís Borges, seu amigo».

A diferença entre o burocrata pedante e o bibliófilo ou, se quiserem, a diferença entre a missa do 7º dia e a festa do livro.

PM

terça-feira, 3 de junho de 2008

SOMOS TODOS INDESEJÁVEIS - 3

Marcel Jouhandeau, francês, escritor, católico, anti-semita, reaccionário e provocador teve a coragem de dizer aos rebeldes de Maio de 68: «Acabareis todos notários». (Não cito a minha fonte para que ninguém fique a saber que, afinal, também li a «autobiografia razonada» de um filósofo espanhol).

Se, quando foi dita, a frase só podia ser entendida como uma provocação, quarenta anos depois adquire o estatuto de premonição.

Três exemplos portugueses: Jaime Gama, Presidente da Assembleia da República e elogiador oficial da vida e obra de Alberto João Jardim; Alberto Martins, líder do grupo parlamentar do PS cujas intervenções políticas têm um efeito muito semelhante ao Valium 10; Alberto Costa, aquele ministro que sempre aparece na televisão com ar de filipino crucificado na Semana Santa (como se alguém o obrigasse a ser ministro...). Pois bem, estes senhores eram, em 1968, jovens rebeldes e dirigentes estudantis. Quem se atreveria a prognosticar-lhes uma carreira de notário?

SOMOS TODOS INDESEJÁVEIS - 2

Pela ordem natural das coisas, os «soixante-huitards» são uma espécie em vias de extinção. Aos arrependidos dos últimos quarenta anos, juntar-se-ão os mortos dos próximos vinte e, em 2028, estarão todos (ou quase todos) a tentar revolucionar o Inferno.

Mas, até lá, e pelo menos de dez em dez anos, aí temos nós as comemorações de «Maio de 68» com debates, filmes, edições e reedições de livros, jornais, revistas.

Os «quarenta anos de Maio» não fugiram à regra e, em Portugal, os festejos estiveram à altura dos acontecimentos tendo mesmo ofuscado, lamentavelmente, as comemorações dos cinquenta anos da candidatura do General Humberto Delgado à presidência da República.

À lista de jornais e revistas que por cá circularam e trataram do tema (Magazine Littéraire, Notícias Magazine, Jornal de Letras, Visão-História, Le Monde 2, etc.) podia ser acrescentada uma outra de livros que, maioritariamente editados em França, a FNAC e a Livraria Francesa muito justamente destacaram. Destes, refiro apenas «Mai 68 Expliqué à Nicolas Sarkozi» (posteriormente, editado em português), de André Glucksmann (que continua radical, tendo apenas mudado da esquerda para a direita e, hoje, apoia Sarkozi) e de Raphael Glucksmann, porque pela sua leitura fiquei a saber que os «soixante-huitards» são, entre outras coisas horríveis, os grandes responsáveis pelo genocídio no Ruanda, em...1994.

Somos todos delirantes. Mas uns deliram mais do que outros.