sábado, 30 de abril de 2016

UM IMENSO ADEUS

Morreu o escritor e historiador de arquitectura Paulo Varela Gomes

SUGESTÃO


sexta-feira, 29 de abril de 2016

ROTINA

PJ faz buscas por suspeitas de corrupção na subconcessão dos Estaleiros de Viana

Em causa, suspeitas de corrupção, administração danosa e participação económica na subconcessão à Martifer e venda de navio à Douro Azul. Ministério da Defesa visado por buscas.
A Polícia Judiciária (PJ) está a levar cabo, esta sexta-feira, buscas nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, no Ministério da Defesa, no Restelo, em Lisboa, na Empordef S.A, a holding do Estado tutelada por aquele ministério, e na Douro Azul, empresa de Mário Ferreira, localizada no Porto, que comprou um barco àqueles estaleiros. 
Público


DE OUTROS


“As tarefas da história e os usos da memória são indissociáveis do tipo de sociedade que queremos como presente e como futuro”.

“Quando autores como Vasco Pulido Valente ou Rui Ramos, a propósito do centenário da I República (e bem antes) a caricaturam como um regime terrorista e caótico, num discurso primário decalcado da propaganda estadonovista, o que pretendem não é tanto tratar da I República, mas sim legitimar a ditadura militar e o salazarismo que lhe teriam sucedido como aurora redentora”.

Fernando Rosas

quinta-feira, 28 de abril de 2016

UM IMENSO ADEUS

Rui d'Espiney, militante antifascista e cofundador de dois movimentos comunistas maoistas, de cisão no PCP, em 1964, morreu hoje aos 73 anos, em Setúbal, disse à agência Lusa fonte familiar.
Nascido em Moçambique, foi um dos fundadores, em 1964, da Frente de Acção Popular (FAP) e do Comité Marxista-Leninista Português (CM-LP), juntamente com outro ex-comunista, Francisco Martins Rodrigues, que resultou de uma cisão no PCP e que defendia a luta armada contra a ditadura.

SUGESTÃO


quarta-feira, 27 de abril de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

CEM ANOS


"Um grande, grande adeus do seu pobre Mário de Sá-Carneiro"

26 de abril de 1926

QUASE

SUGESTÃO


segunda-feira, 25 de abril de 2016

SEMPRE



Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

INTERVALO MUSICAL

PARA ABRIL








LIBERDADE SANTA E CRIADORA,

MÃE AMOROSA E SEMPRE AMADA,

DO BREU, PELAS MÃOS DA MADRUGADA,

ROMPESTE O VENTRE VIRGEM DA AURORA


E VIESTE COMO UM SOL QUE ACALORA

OS CORAÇÕES DESTA TERRA DESESPERADA;.

- SE CHEGASTE, FOI SÓ PARA SERES VENERADA

POR MIIM,  POR TODA A GENTE QUE TE ADORA!                            

                                                                                                                        

AMAR-TE-EI, SEM MEDO, TODA VIDA, 

JUREI FAZÊ-LO ATÉ À ETERNIDADE

POR TI, SEM QUARTEL NEM GUARIDA;


Ó ESBELTA, Ó DOCE, Ó DELICADA AMANTE,

QUE NÃO TENHAS MAIS O AMARGO DA SAUDADE

PORQUE ÉS A LUZ ATRAVESSANDO UM DIAMANTE!

                                                                                                                       


                                                                         Daniel Nobre Mendes   
                                                                          2016   

domingo, 24 de abril de 2016

OS PÁSSAROS E AS PÁSSARAS




Pronto, já percebi: há os presidentes e as presidentas; há os cidadãos e as cidadoas; há os charros e há as ganzas.
Tudo bem. Mas  assalta-me uma dúvida em relação à passarada: há os pássaros e há as pássaras. E como é que se distinguem? Será por apalpação?

MERCENARISMO MILITANTE

Catroga no momento em que fala a Costa sobre um eventual papel de "negociador", esta quarta-feira na cerimónia da EDP

sexta-feira, 22 de abril de 2016

DESFILE NO LAVA-JATÓDROMO

Na madrugada de ontem, num só lance, o Supremo Tribunal Federal (STF) anexou ao processo da Operação Lava-Jato os nomes do ex-presidente, da atual presidente e do provável futuro presidente. Lula da Silva (PT), Dilma e Michel Temer (PMDB) são todos citados na delação premiada do ex-senador petista Delcídio do Amaral que agora o juiz Teori Zavascki, a pedido do procurador-geral da República Rodrigo Janot, resolveu incluir no inquérito que tenta apurar se foi montada uma organização criminosa com a participação de mais de 40 políticos para desviar dinheiro da Petrobras. (DN)

DIVULGAÇÃO


quinta-feira, 21 de abril de 2016

BROCHELAS

"A “Europa” fez desaparecer a democracia interna de cada país ou, pelo menos, dos países mais vulneráveis. A humilhação imposta à Grécia depois do referendo foi um ato de vendetta contra um projeto alternativo. É muito provável que o mitigado projeto alternativo português – uma geringonça com o PS no governo e o Bloco e o PCP na oposição – venha a ser alvo, senão das mesmas tentativas de vingança, de algumas muito parecidas. Ler o relatório das sumidades da Comissão é um bom princípio para perceber como funcionam aquelas cabeças – que não se inibem de dizer que Portugal estava em muito melhores condições quando estava sob a gestão da troika."
Ana Sá Lopes
«I»

quarta-feira, 20 de abril de 2016

MPLA - MOVIMENTO PARA LAVAR 'ARGENT'

Novos dados levantam dúvidas sobre filho de José Eduardo dos Santos


Panama Papers. José Filomeno de Sousa dos Santos, filho de José Eduardo dos Santos, pode ter usado o Fundo Soberano de Angola para 'lavar' cinco mil milhões.
Mais uma peça que se junta ao híper complexo escândalo dos Papéis de Panamá, desta vez com Angola como o centro de todas as operações. De acordo com um artigo publicado pela Rede Africana dos Centros de Reportagem de Investigação e pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, de que fazem parte a TVI e o Expresso, o Fundo Soberano de Angola, liderado por José Filomeno de Sousa dos Santos, filho de José Eduardo dos Santos, pode ser, na verdade, um veículo criado para lavar cinco mil milhões.
A história gira à volta de um conjunto de personagens que, por si só, já deixam antever a complexidade desta teia de relações. “Um enteado do vice-presidente, um presidente de um banco alemão caído em desgraça, gestores condenados por gestão danosa, um banco russo privado” e o Fundo Soberano de Angola (FSDEA), gerido por José Filomeno, ou Zenu, filho do Presidente angolano, assim descrevem a TVI e o Expresso.

terça-feira, 19 de abril de 2016

BROCHELAS


JARDÉIS E TIRIRICAS



Confesso que a desatenção com que sigo a vida política brasileira me levou a pensar que a eleição dos deputados Jardel e Tiririca tinham sido acidentes de percurso, daqueles com que a História sempre nos vai surpreendendo. Os brasileiros tinham o Jardel e o Tiririca como nós tínhamos o José Manuel Coelho e o Alberto João Jardim. Coisas que acontecem, enfim.
Porém, ao ouvir, no domingo, as declarações de voto dos deputados brasileiros, sobre a destituição da presidente Dilma, concluí que, afinal, a representação política no Brasil está entregue a um bando de jardéis e tiriricas. De todos os que ouvi, e foram muitos, nem um se aproveitava. Ao pé daquilo, o Tino de Rans, o Ninja de Gaia, o Coelho e o Jardim do Funchal, o Relvas dótor, o Pedro de Massamá, e até o outro de Boliqueime formariam um grupo de elite.
Dizia De Gaulle, há muitos anos, que o Brasil não era um país sério. Tinha razão, tem razão!, o Brasil não é um país sério. E não é só pelo mensalão, pelo petrolão, pelo lava jato. É que só um país que não é sério pode ter uma 'classe política' como aquela. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O QUE MARCELO REBELO DE SOUSA NÃO DISSE EM COIMBRA

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve em Coimbra para agradecer aos estudantes a atitude rebelde na crise académica de 1969.  Disse:  “Em 1969, o Presidente da República não deu a palavra aos estudantes. Em 2016, o Presidente da República veio agradecer a palavra aos estudantes”. E disse mais: “Temos memória e agradecemos”.
Só não disse, e foi pena, que, em 1969, o aluno da faculdade de Direito de Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa, furou a greve aos exames decretada por solidariedade com os estudantes de Coimbra e foi manifestar o seu apoio ao presidente do Conselho de Ministros de então, Marcello Caetano.
Memória selectiva ou mais uma manifestação de 'grande lata'?

ALELUIA!

Banco de Portugal não concedeu registo de idoneidade a Isabel dos Santos

Decisão do banco central conduziu a que empresária angolana retirasse apoio ao acordo que tinha sido obtido no BPI.
A empresária Isabel dos Santos retirou apoio ao acordo com o Caixabank sobre o BPI depois de o Banco de Portugal lhe ter comunicado já esta semana, e pessoalmente, que não lhe dava o registo de idoneidade para exercer funções na administração do BIC Portugal, onde é a maior accionista. A informação foi recolhida pelo PÚBLICO junto de fonte não oficial do supervisor, que informou que a decisão extrema do BdP se estende a outros gestores do BIC que pediram também o registo da idoneidade. 
O quadro de impasse que se verifica já levou o Governo a enviar para a Presidência da Republica o diploma que acaba com o fim da blindagem dos estatutos que impera no BPI e dá direito de veto à empresária angolana, conforme avança a SIC Notícias.
Público

domingo, 17 de abril de 2016

PROJECTOS "À PORTUGUESA"





Li, juro que li, que esta revista ia para as bancas no dia 1 de abril. Desde aí, e já lá vão quinze dias, tenho farejado todos os quiosques por onde passo. Nada, nem rasto.
E, assim, sou levado a pensar que a revista esgotou mesmo antes de ter saído ou, o que é plausível, a 'notícia' era uma peta do dia 1 de abril, dia das mentiras.

PARA MELHOR COMPREENDER OS CASOS BPN, BPP, BCP, BANIF, BES E OUTRAS PULHICES SIMILARES


sábado, 16 de abril de 2016

MAIS CARTAS PARA QUÊ?



Meus amigos, minhas vítimas preferenciais,

A guerra de guerrilhas é mesmo assim: vai a tropa a retirar, vendo-se já a devastada paisagem depois da batalha, o estado de penúria das tropas expedicionárias, já anunciado está o fim do luso império e eis que se tropeça em mais duas armadilhas:

(Ver os 2 'posts' abaixo)

Mas, a partir de agora, podem ficar descansados e em paz - a guerra acabou mesmo. Disse o "adeus e não regresso". Já estou no cais de Alcântara, vou ali às 'Docas' beber umas bejecas e abanar o capacete. Em paz, meus. E tenham um bom Ano Novo cheio de propriedades.

PM
(Cabo escriturário na reserva)

CARTAS PARA Q.



Empada, 28 de junho de 1971


Q.,


Chegámos aqui a 13 de maio. A 28 de maio, depois da saída dos 'velhinhos', assim se diz dos que vão avançados em tempo de comissão, assumimos a responsabilidade da zona. Repara no pormenor e no simbolismo das datas: 13 de maio e 28 de maio. Nossa Senhora, em Fátima, lá pelos idos de 17; o fascismo, em Braga, 'cidade santa da revolução', como lhe chamava o avejão de Santa Comba, lá pelos idos de 26. E agora nós, a 13 e a 28 de maio do ano da graça (ou desgraça) de 1971, aqui em Empada, soldados da Fé e do Império, bíblia ao alto, G3 em punho, lutando pela conversão dos 'terroristas' e pela perenidade do Estado Novo e do Portugal do Minho a Timor. Heróis do mar, nobre povo, nação valente. Imortal!

E o que é Empada? Um quartel, uma tabanca à volta onde se amontoam as populações que abandonaram as aldeias limítrofes e hoje quase desaparecidas, levadas pelas chuvadas fortes e engolidas pelo capim, arame farpado em toda a volta, os nossos postos avançados com metralhadoras pesadas, bazucas, morteiros, cartões de visita a apresentar, para primeira impressão, a visitantes não convidados, mil metros de terra batida a fazer de pista para poiso de pequenas avionetas, tendo do lado de cá também um posto avançado com o material já descrito e mais um obus 8.8, velhinho dos anos 20, mas bem conservado, muito honesto e eficiente - actua em tiro curvo e tiro directo e bate-se, galhardamente, porque para isso tem alcance, com os novos canhões sem recuo e morteiros 120 que, do lado de lá, à confortável distância de oito ou dez quilómetros, nos enviam 'ameixas' de criar bicho. Empada - uma tradução portuguesa das aldeias estratégicas que os americanos criaram no Vietname. À volta, das 'estradas' restam dois ou três quilómetros que vão até ao pequeno cais no rio grande de Buba (na verdade, uma ria) e os caminhos fazem-se caminhando como tanta gente já disse, até o irmão Josemaria Escrivá de Balaguer, da Opus Dei. Caminhando, caminhando por trilhos largos de centímetros, nem ao metro chegam, entre capim, no meio da mata, atravessando pântanos passo a passo, pernas enterradas, uma a uma, até ao joelho, em lama de meter nojo. Com um efectivo mínimo de noventa homens, dois pelotões de tropa mais um pelotão de milícias africanas, caminhando em fila indiana a intervalos de três metros, por razões de segurança, uma bicha que nunca mais acaba, quase trezentos metros, vinte milícias à frente, fazem de pisteiros, conhecem bem o terreno, identificam pegadas de homens e bichos, têm experiência de guerra, sabem das manhas da guerrilha. O primeiro branco sou eu e não é por querer dar patrióticos e heróicos exemplos - quero aprender, aprender o máximo, aprender tudo de guerrilha e contra-guerrilha para melhor salvar peles, a minha e a dos que vieram comigo. É o melhor serviço que posso prestar à Pátria, essa entidade mítica que enche a boca dos que nos mandaram para aqui.

A área para onde viemos 'em missão de soberania' é considerada, pelo sempre glorioso Exército português, zona de intervenção do Comando-Chefe. Já para o PAIGC, é considerada zona libertada. E, pelo que já me foi dado ver, parece-me que estes últimos têm alguma razão.Têm gentes e aldeias do 'lado de lá' e não muito longe de nós. Durante o dia, fazem alguma cerimónia nas saídas porque nós temos a grande vantagem do apoio aéreo (os Fiat, partindo de Bissau, põem-se aqui em doze minutos e, depois, picando a quinhentas milhas à hora, metem as 'ameixas' onde querem, quase com precisão de 'snipers'. Mandam-nos estender as telas vermelhas para assinalar a nossa posição, fazem o servicinho bem e depressa, desejam-nos boa sorte pelo rádio e regressam à base. Já tivemos de os chamar para uma situação de aperto, já os vimos actuar, falo do que sei e compreendo a 'cerimónia' das guerrilhas). À noite, os cerimoniosos somos nós. As patrulhas e emboscadas fazem-se com cuidados redobrados, coração mais agitado, cu mais apertadinho, em silêncio e sem cigarros (a chama do isqueiro e o cheiro do tabaco são sinais que nos podem sair caros...). Já eles, bons conhecedores do terreno, experientes, movem-se à vontade e chegam a instalar-se e a atacar com Kalashnikoves e rockets a cento e cinquenta metros do arame farpado. Um atrevimento que abuso seria se a terra não fosse deles.

Estamos aqui há pouco mais de um mês e já sofremos quatro ataques (embrulhámos, como se diz na gíria, quatro vezes). Às armas ligeiras respondemos a partir das valas, às armas pesadas lá respondemos com os morteiros e o obus. É perigoso e barulhento, mas lá nos vamos safando. Tem havido feridos civis, mas a nós os deuses não nos têm abandonado. Antes assim.

De toda esta situação tiramos nós, infantaria do peido e coice, uma vantagem: não fazemos operações ofensivas. Essas estão guardadas para as tropas especiais, tropas de elite, se por elite entendermos os mais pobrezinhos de espírito, os dos testes escritos mais fracos, os fisicamente mais aptos, os primeiros a tatuar, para que se saiba e fique até ao fim da vida, "Guiné - Sangue, suor e lágrimas",  os escolhidos e treinados para se aprimorarem na arte de bem matar, os audazes que a sorte protege, como lhes dizem, eles acreditam, mas nem sempre acontece. Que o Altíssimo os proteja (e não estou convertido a nenhuma religião, 'me cago en Diós' como os anarquistas espanhóis, estou a ser egoísta - da sorte e da eficiência deles pode depender o nosso 'bem-estar').

Aí tens, pois, um panorama, uma vista geral das terras e gentios (os que estavam e os que chegaram) deste torrão tão português como o Alentejo moreno ou o verde Minho (Ah, ah, ah!). Mais pormenores nos próximos capítulos, falta muito tempo para o fim.

E:

Beijo-te,

P.

CARTAS PARA Q.



Empada, 31 de março de 1972


Q.,



Há um ano, ou por aí, ao ver-me entrar na livraria 'Opinião', o Hipólito disse-me logo "Tenho cá uma coisa para ti" e foi à gaveta com protecção anti-bófia. Trouxe de lá um livro que circula clandestinamente: "Poesias e Cartas", do José Bação Leal. Trouxe o livro comigo.
E, hoje, o José Bação Leal é meu amigo íntimo.
Mataram-no em Moçambique, no hospital de Nampula, mas a mãe não o deixou morrer: foi bater à porta dos amigos do filho a quem ele tinha escrito; juntou cartas aos poemas dele, que tinha resgatado do cesto dos papéis, para onde ele os atirara; reuniu o material e pediu um prefácio a um homem bom, solidário, corajoso, o Urbano Tavares Rodrigues. Mãe coragem e editora pôs o livro nos circuitos das livrarias que têm uma 'secção especial' para clientes 'especiais'. E o Bação Leal continua vivo.

Mandaram-no para Moçambique, lá pelos idos de 64, para a guerra, pois claro, e com o carimbo vermelho PS (politicamente suspeito). Mas ele incomodava muito: tinha opiniões e nem sempre favoráveis à guerra e aos seus autores e, suprema heresia: manifestava-as e em voz alta; lia revistas francesas e isso o levava a longos interrogatórios feitos por um major; contestava a qualidade da comida e era ameaçado pelo comandante que o acusava de estar a instigar um levantamento de rancho; 'foi aos cornos' a um oficial de transmissões (é preciso cuidado com os oficiais de transmissões, têm acesso a informação sensível e, por isso, são muito 'peneirados' na selecção, alguns são mesmo 'pideirados') e foi punido com cinco dias de prisão. Mas era pouco, levou mais uma pena acessória de transferência lá para cima, para Vila Cabral, Metangula, lá bem no meio do que é conhecido pelo 'estado de minas gerais'. Acertaram em cheio: pouco tempo depois, uma mina anticarro com a força, sopro e barulho que lhe são próprios, atirou-o ao ar, bem alto, mas ele caiu de pé. Com os ossos doridos, e uma dor de cabeça infernal, lá foi transferido para o hospital de Nampula. E a dor de cabeça sempre a aumentar e ele a dizer (e a escrever) "Prefiro o Vietname a estas dores de cabeça. Era boa altura de me mandarem para casa." No hospital diziam-lhe que era um ataque de sinusite e ministravam-lhe anestesiantes. E as dores a aumentar, sempre a aumentar e às queixas sempre lhe respondiam "É da sinusite". Não era sinusite, era o sangue a correr no cérebro por caminhos indevidos. Morreu ("suicidaram-no!") para alívio de muitos. E não foi de sinusite.

Os arquitectos que lhe 'projectaram o jazigo' esqueceram-se de um pormenor: a mãe não o deixou morrer. Lançou o livro que é um libelo acusatório. Circula hoje clandestinamente mas, um dia, será um bom documento para ser lido no nosso improvável tribunal de Nuremberga. Veremos. Até lá, o Bação Leal (em livro) anda comigo, andará sempre comigo. É o meu amigo íntimo, solidário, é o amigo que me ensina a evitar os caminhos minados, é o amigo que, permanentemente, me diz "Cuidado com a sinusite".

E eu tenho aprendido. Por isso te posso escrever e mandar muitos

Beijos,

P.



sexta-feira, 15 de abril de 2016

OS GÉNEROS

O Bloco de Esquerda quer mudar o nome do Cartão de Cidadão para Cartão de Cidadania. A mudança foi proposta num projeto de resolução entregue esta quinta-feira no Parlamento.
Os bloquistas dizem que o "Cartão do Cidadão" (como o identificam, ainda que o nome oficial do documento seja "Cartão de Cidadão") tem um nome que "não respeita a identidade de género de mais de metade da população portuguesa". (TSF)
Ainda bem que o haxixe se livrou destas polémicas sexistas: quando é enrolado para eles é o charro; quando é enrolado para elas é a ganza.

INTERVALO MUSICAL

quinta-feira, 14 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.



Bissau, 16 de junho de 1972


Q.,


Ela rondou, rondou. Andou mais de um ano a fazer negaças.  A ameaçar com minas, balas, granadas, doenças. A meter medo. E sempre a bater ao lado, mas a marcar presença, a espreitar uma oportunidade: eram os feridos, eram os mortos civis, eram os feridos, eram os mortos das guerrilhas, eram os feridos, eram os mortos militares, como estes aqui à nossa frente, vindos de todos os pontos da Guiné, na capela do Hospital Militar, urna coberta pela bandeira nacional, guarda de honra, continência de luva branca, funeral até ao cemitério de Bissau a aguardar transporte para a 'Metrópole'.

Habituámo-nos a este macabro convívio. E de tantas vezes dela nos safarmos, chegámos a acreditar, sobretudo depois da nossa vinda para Bissau, que, afinal, isso da morte era uma questão que só dizia respeito aos outros. Lamentávamos, comovíamo-nos e chorávamos, até, nas cerimónias fúnebres, amaldiçoávamos a guerra e quem a provocava e mantinha, gritávamos "Tirem-nos daqui!", estávamos fartos, ansiávamos o dia do regresso, chamávamos pela 'Peluda' e quem cá ficasse que se derenrascasse e o último que apagasse a luz.

Pois. Até que. Até que, ontem, ela nos bateu à porta. Brutal, como sempre e, desta vez, insuportavelmente cobarde. Dois soldados, um do meu pelotão, foram mortos. Mortos às mãos de um inimigo que, subrepticiamente, se vai aproximando de todos nós, silencioso, camuflado, insinuante - a loucura. 
Estavam no serviço de guarda ao Hospital Militar os soldados que ontem morreram.  Tinham saído de turno, descansavam na casa da guarda. E o 'inimigo', na pessoa de um soldado internado na Psiquiatria do Hospital, apareceu, pegou numa G3 que estava no armeiro e disparou à queima-roupa. Um tiro no peito de um, um tiro na cabeça do outro. Os dois mortos, logo ali. Foi assim, quando menos se esperava, onde menos se esperava. Fizemos o funeral com as honras militares habituais,  lá estão numa casa mortuária do cemitério de Bissau a aguardar transporte de barco para Lisboa. Do soldado que disparou pouco se sabe: estava internado em Psiquiatria, internado em Psiquiatria ficou. E também não se sabe, talvez nunca se venha a saber, por onde andou, o que viu, o que fez, o que lhe fizeram para chegar aqui.

Soldados 166660670 e 16747970 abatidos ao efectivo da unidade. Acidente com arma de fogo. Publique-se. O comandante - assinatura ilegível.  Assim ficará registado nos papéis oficiais. Trasladação por conta do Estado, pensão de sangue e outras burocracias - tratar no Distrito de Recrutamento mais próximo de si. Assim será dito às famílias. Assunto encerrado.

E, assim:

 Cumpriu-se o Mar e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


Q.,

Faltam nove meses para o fim do pesadelo. É muito tempo, dá para muitas surpresas. E se, por acaso, um dia de mim ouvires dizer que parti tão cedo deste mundo descontente e repouso lá no céu eternamente, pergunta ao mensageiro se foi doença súbita ou acidente com arma de fogo. E depois, olha:

Depois para teu bem
e enquanto esperas que chegue alguém
vai falando em mim
como se eu continuasse a viver
e o morrer não fosse um fim

Beijos,

P.







quarta-feira, 13 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.


Empada, 1 de Maio de 1972


Q.,


Já temos data marcada para o embarque para Bissau. Estamos em fase final de passagem de testemunho à Companhia que nos veio render. Ontem, saí uma vez mais para o mato para mostrar aos 'periquitos', termo usado para definir os recém-chegados à Guiné, os terrenos que irão palmilhar nos próximos tempos. Julguei ser a minha última saída para o mato. Enganei-me, hoje voltei ao mato.

Por volta da hora de almoço, ouvimos o som cavo de um rebentamento. Percebemos que era de uma mina, não muito longe do quartel. Temos tal experiência de sons de explosões que até no meio de um ataque feroz distinguimos os assobios das granadas de canhão dos assobios das granadas de morteiro. Pela intensidade do som de saída das granadas, conseguimos calcular, aproximadamente, a distância a que estão as armas a disparar. A 'música' de um morteiro a cinco quilómetros é diferente da 'música' de um canhão a oito quilómetros. Logo a seguir ao rebentamento, chegou uma mensagem rádio do nosso pessoal que estava no mato e regressava: estavam a cerca de dois quilómetros e tinham um ferido grave, pediam uma maca para transportá-lo e solicitavam uma evacuação 'yankee', a mais urgente, com enfermeira, para o Hospital Militar. Lá fui com o meu pelotão e com a maca. Fomos em passo largo, como as circunstâncias impunham, mas sempre a olhar para o chão para verificarmos bem os sítios onde púnhamos os pés, mais sobressaltados do que nunca.

No local, percebemos que o ferido era o Braga, um furriel 'periquito' que tinha saído pela segunda ou terceira vez para o mato. Estava deitado, coberto de pó, a balançar-se de um lado para o outro com as dores do ferimento e do desespero. O cabo enfermeiro já tinha feito o seu trabalho: soro, garrote na perna e coagulantes para estancar a hemorragia, anestesiantes, a canela envolta em algodão, gaze, ligaduras, já vermelhas do sangue. O pé tinha voado e desaparecido. Lá trouxemos o ferido. Vim sempre ao lado da maca a falar com ele, a tentar evitar-lhe o desânimo, do outro lado da maca ia o cabo enfermeiro, a segurar o saco do soro. Julgo que ajudei a mantê-lo consciente, mas não consegui animá-lo. Às tantas, disse-me ele: "A minha vida acabou". Respondi-lhe com sinceridade: "A tua vida não acabou, para ti só acabou a guerra. Com uma prótese, fazes a tua vida com normalidade". 'Normalidade' disse eu, como se fosse normal perder-se um pé numa mina, aos vinte e dois anos, como se o crime continuado desta guerra, ao fim de tantos anos, tivesse adquirido o estatuto de normalidade, como se fosse normal haver uma geração com dezenas de milhares de estropiados, como se normal fosse termos os cemitérios cheios de campas de jovens. 'Normalidade', disse eu... E o cheiro do sangue vivo, doce, penetrante, pegajoso a entrar-me pelo nariz e a ficar colado. E eu a ficar fodido, cada vez mais fodido com isto tudo.

Quando chegámos a Empada, fomos directos para a pista. A 'Dornier' já lá estava à espera com o piloto e a enfermeira pára-quedista. E o Braga lá foi, duas semanas depois de ter chegado ao campo fortificado de Empada. Só com um pé.
O piloto, um furriel já perito em trabalhos de evacuação de feridos, tentando desdramatizar a situação e animar o Braga, piscou-lhe o olho e disse à enfermeira: "Tem cuidado com as aproximações que ele tem as duas mãos operacionais.". O Braga sorriu. Foi bom.

E foi um dia triste, foi mais um dia triste neste campo fortificado de Empada, baluarte, perdido no sul da Guiné, da defesa da Civilização cristã e ocidental. Que Deus seja louvado. Ou que a sua ausência venha em nosso auxílio.


Ah vazio! Eterno vazio!
vais-me matando aos poucos
estou farto de não viver
não tarda estarei louco
ou morto sem morrer

Beijos,

P.

A BOLSA E AS BOLSAS


O DN titula em primeira página:

Especialistas dizem que entrada de banco angolano valoriza bolsa

Pois, pois. Os especialistas (e outros artistas) também recomendaram a compra de acções do BES e depois viu-se.
Em todo o caso, eu também recomendo: comprem, comprem acçõezinhas de bancos angolanos. É que a estatística já me dá poucos anos de vida e eu, antes de morrer, ainda quero dar muitas gargalhadas.

ROTINA

PJ detém 15 suspeitos de corrupção em buscas a directores e funcionários do fisco

Público

terça-feira, 12 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.



Empada, 5 de janeiro de 1972

Q.,

Hoje, dia agitado com quebra de rotinas. Visitas inesperadas. Logo de manhã, bem cedo ainda, seis helicópteros a sobrevoar o quartel com pedido de segurança na pista. Lá fomos, como compete, montar a segurança ao Aeroporto Internacional de Empada que é o que chamamos a estes mil metros de terra batida onde aterram helicópteros e avionetas. E os 'hélis', em segurança, lá baixaram. Soubemos, então, que vinham por três horas, o tempo previamente estabelecido para a recolha dos Comandos africanos que tinham largado ali um pouco mais à frente, vinte quilómetros, talvez, para uma operação de 'limpeza' numa aldeia da zona controlada pelo PAIGC. Porrada da grossa pela certa, mas, como diz o povo na sua imensa sabedoria, "Tiro no cu dos outros, como a pimenta, para nós é bálsamo". E desta estamos safos. Aliás, creio que já te disse, a nosso papel aqui, para afirmar a soberania portuguesa (ah, ah, ah!), não passa disto: patrulhamentos, emboscadas, levantamentos de minas, sempre na defensiva, e resistência e resposta aos ataques que são cada vez mais frequentes.

Fomos para a messe beber uns copos e falar de experiências africanas. Lá falámos das nossas rotinas, não vou repetir, eles falaram da vida deles. Que é dura e arriscada: alerta permanente na base de Bissau, protecções ao Spínola, aqui conhecido por Sebastião Baldé, que tem a coragem de visitar os pontos mais perigosos do teatro de guerra (que conste, é o único general que o faz); evacuações de feridos, umas vezes sem pernas, outras, cheios de buracos de balas, alguns com as tripas de fora que cheiram a sangue e a merda; ataques com heli-canhões em missão de socorro aos aflitos cá em baixo, arma poderosa e temida pelas guerrilhas com apontadores exímios que, apesar da trepidação da máquina, metem as 'ameixas' de gordo calibre onde querem e, se o guerrilheiro está à vista, até escolhem a parte do corpo que querem alvejar. E não falham: na cabeça ou no tronco, lá fica mais um morto.

E, três horas passadas, lá fomos levá-los à pista, lá partiram. Partiram eles e chegou um outro helicóptero, este com os despojos da operação: umas caixas com roupas, uma máquina de costura, uma caçadeira, uma outra caixa com objectos diversos onde os meus olhos de lince pousaram sobre quatro livros. Livros, livros! E se fui rápido no olhar, mais rápido fui num movimento de mão. Com uma perícia de fazer inveja ao melhor carteirista do 'Eléctrico 28, o '28' da Carris' surripiei-os, abafei-os dentro da camisa, em movimentos tão rápidos que nem o piloto, nem os soldados que rodeavam o aparelho deram por isso. E foi neste preciso momento que as coisas se podiam ter complicado: Uma 'Dornier' parava ao lado do helicóptero e, lá dentro, um conhecido e bravo tenente-coronel dos Comandos, menino bonito do Sebastião Baldé, comandante da operação, olhava para o ajuntamento com cara de poucos amigos. Só tive tempo de passar os livros ao 'Bife' e dizer-lhe "Desaparece para o quartel e esconde-os no teu armário que depois eu vou ter contigo" (o 'Bife' é soldado do meu pelotão e pessoal de confiança. Nado e criado no Bairro Alto, está habituado ao convívio com os tipógrafos do Diário Popular, Diário de Lisboa, Bola, tudo gente do contra, diz ele). E ainda o 'Bife' não tinha dado mais de uma dúzia de passos e já o tenente-coronel estava ao meu lado, aos berros "Mas quem é o gajo que manda nesta merda?" E eu, sem galões e ainda com a camisa desabotoada, fiz a continência da praxe e disse "Meu tenente-coronel, o gajo que manda nesta merda sou eu" e lá declinei posto e nome. Então, ainda aos berros, disse ele "Mande afastar esses merdas". E eu, obediente e para não levantar suspeitas, voz grossa de comando, como a situação impunha, virei-me para os soldados e comecei também aos berros "Seus merdas, toca a afastar, seus merdas!". Eles não se ofenderam, afastaram-se, não complicaram. Sabíamos todos a merda onde estávamos metidos. O tenente-coronel passou um breve olhar sobre o espólio e mandou os aparelhos levantar voo para Bissau. Respirei de alívio. Uf! os livrinhos já cá cantavam.

E aqui estão eles à minha frente, em cima dos caixotes que, no meu quarto, me fazem de secretária: "Antologia Mayor", Nicolas Guillen, Ediciones Unión, La Habana, 1964; "Le Capital - Cours Élémentaire", Walter Schellenberg, Verlag Zeit Im Bild Dresden; "Textes Philosophiques Choisis", N. Tchernychevski, Moscovo; "O Nosso Livro 2ª Classe", Uppsala. O livro do  Tchernychevski tem uma folha seca a assinalar o ponto de paragem da última leitura. Foi na página 303, com um último sublinhado a lápis na frase: "aujourd'hui encore on a souvent coutume de comparer aux enfants les peuplades étrangères incultes et les classes inférieurs de la nation et d'en conclure que les nations civilisées ont le droit d'obliger les peuples non civilisés qui leur sont soumis à modifier leur mode d'existence".

Aqui estão eles e não sei se me acusam por terem sido roubados a quem tão carinhosamente os tratava ou se me agradecem por tê-los salvo das mãos dos bófias, sargentos ou oficiais, da 'Segunda Repartição' que, depois de um olhar superficial, anotando apenas os locais de edição - Moscovo, Havana, Dresden, Uppsala, tudo santuários dos incréus que nos obrigam à presente cruzada - certamente os mandariam para as latrinas a fim de, folha a folha, e como última função, limparem a trampa que eles andam cá a fazer. Não sei. Em todo o caso, apetecia-me levar para o mato os 'Poemas', do Maiakowski, que trouxe de Lisboa e deixar o livro, aberto, pregado no tronco de um embondeiro, junto a um trilho por onde passamos, nós e eles, à vez, e deixar bem à vista, sublinhado a vermelho: "Eis-me quite contigo. / E é inútil o passar em revista / penas / azares / e recíprocas feridas."

E depois de dia tão agitado, vou tomar a habitual dose cavalar de 'Valium' e 'Mogadan' para conseguir dormir. E, enquanto o sono não vem, lerei Guillen. 
O primeiro poema da 'Antologia', 'La Balada Azul', começa assim: "Frente al mar, viendo las olas / la quieta orilla besar, / los dos muy juntos"...

E pensarei em ti, em nós. 'Los dos muy juntos'.
E beijo-te,

P.

NOTÍCIAS DOS 'MERCADOS'

O diretor-geral da unidade espanhola do Caixa Banco de Investimento, da Caixa Geral de Depósitos, foi detido esta segunda-feira em Madrid no âmbito da operação para deter o antigo banqueiro espanhol e ex-presidente do Banesto Mario Conde. Fernando Guash Vega-Penichet, diretor-geral da CaixaBI Espanha, é genro de Mario Conde, tendo os dois - em conjunto com outras cinco pessoas - sido detidos por alegados delitos contra a Administração Pública, branqueamento de capitais, insolvência punível e organização criminal. (CM)

SUGESTÃO


segunda-feira, 11 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.



Bolama, 12 de maio de 1971


Q.,


Amanhã, partimos de Bolama, ilha sem guerra, onde, em pouco mais de um mês, aboletados no quartel do CIM - Centro de Instrução Militar, na cidade, ou abivacados no mato, num acampamento improvisado e digno da mais miserável trupe de ciganos, estivemos em adaptação ao clima, a castigar o físico em provas de resistência, palmilhando centenas de quilómetros entre capim, mata, enterrando-nos e desenterrando-nos nos pântanos, aqui ditos bolanhas, a aprimorar a arte de bem matar em toda a linha, a afinar pontarias, com granadas defensivas e ofensivas atiradas a dezenas de metros, morteiradas e bazucadas apontadas para alvos lá a centenas de metros, G3 e HK21 em tiro-a-tiro de precisão, ou em rajadas de tiro instintivo disparadas com as armas encostadas à anca. Foi um fartote, nada que se compare ao treino de fogo, na carreira de tiro da serra da Carregueira com balas contadas e sempre com receio de atingir um vizinho. E também treinámos na arte de passar fome: rancho comum e muito variado: arroz com ossos e estilhaços de frango, massa com ossos e estilhaços de carne de vaca, chispes ossudos levemente revestidos a gordura com feijão, ração de combate. Às vezes, para variar, era um pouco diferente: arroz com ossos e estilhaços de carne de vaca, massa com ossos e estilhaços de frango, feijão com chispes ossudos levemente revestidos a gordura, ração de combate. Está formada e  entrou em regime de exploração a sociedade ' 1º Sorja Semedo & Furriel Vagomestre, Restauração, Lda'. O filho-da-puta do capitão pisca-lhes o olho e deixa andar. À minha contestação respondeu, em tom autoritário: "Não se meta em assuntos do rancho". Rancho - assunto secreto, segredo militar. O apuramento dos dividendos a receber fica lá mais para o fim da comissão. Bom, estamos aptos. Um pouco subnutridos, mas aptos para matar. Balas não faltam, granadas também não. Haverá coragem ou necessidade? O tempo e as circunstâncias o dirão.

A ilha de Bolama, como todas as ilhas do mundo, está rodeada por água, neste caso mar, mas só tem uma praia com uma língua de areia onde nos podemos sentar e, mal entramos na água, os pés enterram-se em lama preta e porca, com 'matacanha', um bichinho antipático que gosta de se alojar por baixo das unhas dos pés e causa estragos dolorosos. Por precaução, entramos no mar com as botas de lona calçadas e para um banho breve.

E sobre a cidade de Bolama pouco há a dizer. Desde logo, chamar-lhe 'cidade' já é um acto de boa-vontade e acrescentar que foi capital da 'província' parece um atrevimento, mas foi mesmo verdade. Não é um sítio desagradável: ruas largas, sem trânsito, uma casa de pasto, peões negros, soldados do Centro de Instrução Militar, fuzileiros navais que aqui têm a sua base. Vida calma. Sem guerra nas redondezas - que começa logo ali em frente, em S. João - e sem melgas, um bom livrinho para ler, a tua companhia e seria um aprazível lugar para passar duas ou três semanas de férias.
Mas Bolama tem um monumento raro, senão único no mundo: um monumento fascista mandado erigir por Benito, esse mesmo, o italiano, o Mussolini. O local não foi escolhido por um desses caprichos do Diabo. Foi erigido aqui porque foi aqui que, em 1930, caiu um avião italiano que fazia a viagem Roma-Brasil, em acto de propaganda destinada a mostrar ao mundo mais um esforço fascista de 'paz'. Houve mortos e o Benito -  esse Benito de quem o hortelão de Santa Comba tinha fotografia na secretária de trabalho, no palácio de S. Bento (ou S. Benito), prova de grande admiração, e para a qual olhava enquanto redigia e assinava os decretos do nosso descontentamento - quis homenageá-los. Benito quis, Salazar deixou, a obra fez-se. Com mármore e artistas vindos de Itália ela ali está, imponente, com uma coroa de bronze oferecida pelo Duce, a águia da fábrica de hidro-aviões Savoia, uma coroa com fáscios da Isotta-Fraschini e a coroa de louros da Fiat e com os dizeres:

Crociera Aerea Transatlantica
Roma-Brasile

A. IX E. F. 

Ai Caduti di Bolama
L'Italia

(Cruzeiro Aéreo Transatlântico
Roma- Brasil

Ano IX da Era Fascista

Aos Mortos de Bolama
A Itália)

E se a Itália, em 1945, se deu ao trabalho de derrubar todos os monumentos fascistas, nós por cá, continuando com o Salazar ao leme, mantivemos e conservámos este. E aqui estou eu, em 1971, ano XLV da Era Fascista Portuguesa, a admirá-lo e a dar nota da sua existência. E, agora, se notares a escrita insegura e torta não estranhes. Fui eu que pus a mão esquerda a tapar-me os olhos para esconder a vergonha que sinto e conseguir escrever a frase que segue: O 'Botas' fez bem. Os amigos são para as ocasiões.
Rachelle Mussolini, primeiro, amante, depois, esposa, finalmente, viúva de Benito, emocionada e reconhecida deixou para a História: 'Ammiro veramente i portughesi che non l'hanno distrutto comme è successo qua in itália' (admiro verdadeiramente os portugueses que o não destruiram como aconteceu cá em itália). 

Uma nota final sobre esta estadia em Bolama: Está a descansar aqui no CIM uma companhia de Comandos, em bom rigor: metade de uma companhia de Comandos. A outra metade está espalhada por hospitais (Bissau e Lisboa) e por vários cemitérios do país. Mas os que aqui estão parecem-me animadotes e continuam convencidos que "A sorte protege os audazes". Olha se não protegesse...


 E por aqui me fico. Vou arrumar a bagagem nos sacos de lona para a viagem de amanhã. As lanchas de desembarque da Marinha já ali estão no cais. Esperam-nos.

Un grande bacio,

P.