domingo, 18 de setembro de 2016

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Aprendi com o poeta que tudo neste mundo “é composto de mudança”. Chegou a minha vez de sentir em todas as dimensões do meu eu quão verdadeiras são estas palavras.
Desde 2009 que o meu ser se vai evaporando na luta contra males que continuam a surgir uns atrás dos outros. Tenho travado muitas lutas, umas mais “insanas” do que outras, para os combater, mas a debilidade vai aumentando e a minha capacidade de luta vai desaparecendo. Chegou a hora de abrandar, evitando preocupações, trabalhos e canseiras desgastantes e destruidoras de alguns bocados de mim.
A conselho de quem de mim cuida, tenho de quebrar com esta forma de viver dos últimos 44 anos. Tenho, portanto, de iniciar a mudança mais radical da minha vida, esperando que essa mudança acrescente mais algum caminho ao meu caminhar.
Por razões de saúde vou, pois, encerrar a livraria Culsete.
Sei bem que todos aqueles que gostam de estar na Culsete e na Culsete escolhem os seus livros vão sentir o seu desaparecimento. A cidade de Setúbal, já tão sacrificada com encerramentos comerciais, se bem que por razões diversas destas, vai mais cedo ou mais tarde ressentir-se da falta de um centro de animação cultural tão importante como tem sido esta livraria. O país vai perder uma das mais antigas livrarias independentes. Se aos 43 anos de Culsete juntarmos os de sua antepassada Culdex são 46 anos de luta a favor da causa da leitura.
Gostaria que alguém pudesse agarrar nesta casa e continuar o trabalho que eu e Manuel Medeiros trouxemos até aqui. Era bom que este meu desejo chegasse aos ouvidos de alguém!
Agora que já percebeu o que se tem passado comigo e o que vai acontecer em relação à Culsete, só me resta agradecer-lhe a preferência com que nos honrou nos momentos partilhados connosco entre as quatro paredes da livraria ou naqueles em que enchíamos de livros e escritores as ruas e muitos outros espaços.
Não quero, porém, que deixe de contar comigo. Enquanto tiver capacidade para tal, estarei sempre de braços abertos para a vida e para si, como para todos os amigos e aqueles que me querem bem e desejem agir a favor do livro e da leitura. Não deixe de me desafiar, de me envolver nas suas atividades.
Aproveito para informá-lo de que de 23 de setembro a 2 de outubro farei uma liquidação total do fundo da Culsete, com livros desde € 0,50 cêntimos até € 10,00, estes os exemplares cujo preço de capa seja superior a € 40,00. Espero que apareça e a divulgue junto dos seus contactos porque vai valer a pena aproveitar as nossas preciosidades a preços tão convidativos. Horário: Dias úteis e sábados: 10/13h – 15/19 h; domingos: 14/20 h. Os livros merecem ser escolhidos.
           Portanto, até breve! Fora da Culsete, mas sempre num canto especial deste nosso mundo.

Fátima Ribeiro de Medeiros
Livreira da Culsete

1 comentário:

Daniel Nobre Mendes disse...

DRAMATICAMENTE A MINHA AMIGA FÁTIMA "DESPEDE-SE" DO SEU E NOSSO ESPAÇO QUE DURANTE DÉCADAS VEM ANIMANDO A DIFUSÃO DOS LIVROS E DA CULTURA EM SETÚBAL E FÁ-LO, COMO SE AS PALAVRS QUE ESCREVEU, FOSSEM DO SEU SANGUE E DO NOSSO GOTAS RÚTILAS ARDENTES QUE SE DERRAMAM NAS PEDRAS DA RUA...INUTILMENTE?!- será?!
É, DE FACTO, UMA PERDA ANUNCIADA? E, SE O FOR, É UM CRIME!!!

A CÂMARA DO MUNICIPIO SETUBALENSE, COMO É SABIDO, TOMOU CONTA DAS INSTALAÇÕES DO BANCO DE PORTUGAL, DO EXTINTO QUARTEL DE INFATARIA 11, DO ANTIGO ORFANATO MUNICIPAL,
DO CINE-TEATRO LUISA TODI, DAS INSTALAÇÕES DE UM OUTRO BANCO DE QUE NÃO RECORDO O NOME, DO CINEMA CHARLOT, PROMOVEU A "CASA DA CULTURA", SUCEDÂNEA DO ANTNAZIFASCISTA "CENTRO CULTURAL DE SETÚBAL" E FÊ-LO PARA ENRIQUECIMENTO DOS CIDADÃOS MORADORES E DE QUEM VAI DE FORA, A CÃMARA APOIA, CHANCELA E REALIZA,NOS LUGARES E ESPAÇOS MENCIONADOS, UMA DIVERSIDADE DE EVENTOS QUE SÃO O QUANTO VALE O RECONHECIMENT0 DE QUE É PREFERIVEL A PROMOÇÃO À EXCLUSÃO.

O BELO TEM PONTIFCADO EM SEÚBAL!

ORA, PORQUE NÃO CHAMAR À "CULSETE" "LIVRARIA MUNICIPAL MANUEL MEDEIROS"???!!!

AQUI DEIXO FICAR UM DASAFIO À EDILIDADE E, PONTUALMENTE, AO PELOURO DA CULTURA!

A CULSETE, DE TÃO VELHAS E DIGNAS TRADIÇÕES CULTURAIS, ASSIM, NÃO MORRERÁ- SALVEM-NA POR AMOR, PELO AMOR TÃO ENORME QUANTO O DE MANUEL MEDEIROS E ESPOSA, POR AMOR, POR FAVOR, SALVEM-ME!!!...


Quando chover

Apanha na mão as gotas do beiral

E fica-te

Olhando o ruído abstracto

Das gotas pelo chão.

Fica-te apenas

- Não digas nada -

Encostado ao umbral

Da tua porta aberta.

+++++++++++++

a forma formei
o gato pescou
também eu tentei
o mar recusou

procuras sentido?
p’ra tudo há razões?
ó meu convencido
ao mar nada impões


RESENDES VENTURA- MANUEL MEDEIROS, O LIVREIRO VELHO