sexta-feira, 3 de outubro de 2008

4 DE JUNHO DE 1977

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Foi nesse dia, exactamente nesse dia 4 de Junho de 1977 (a Nini aí está e não me deixa mentir) que li de seguida, em estado de duplo encantamento, esse livro fabuloso de Dinis Machado: «O Que Diz Molero».
Hoje, no dia da morte de Dinis Machado, retirei-o da estante para relê-lo pela enésima vez. Deixo aqui um pequeno extracto como se fosse uma homenagem ou uma chamada de atenção:

«E diz: eu, Molero, poseur, ignorante e cabotino, falso íntimo de profundidades várias e outros abismos, correndo há milhares de anos atrás da minha veia caótica, fazendo agulha para os descampados das aferições mais ou menos compartimentadas, distribuindo de passagem lantejoulas literárias em segunda mão, confesso muitas vezes dar comigo, em certas manhãs suspensas, sentado num banco de jardim, vendo as crianças correndo alegremente para a escola, desenhando no ar os gestos da minha antiquíssima imagem, e confesso este espanto, este perfume, esta luz sobre os telhados, esta ave e este céu, este riso e esta cor, este jogo do agarra, estas mãos que tudo querem, esta estampa na sacola, este grito de alegria, esta troca de pedrinhas, este saltitar à chuva, esta água de brincar deste chafariz que canta, este bibe, esta violeta, esta mulher que vai ali, esta mulher que eu amo tanto, este filho que eu lhe dava, este coração que quero, este mundo que começa, este sol que é o primeiro, esta nuvem que se forma, este som que desagua, este sonho que se afasta, este regresso é tarde, esta luz indirecta no vestíbulo, este espelho, oh, este espelho, o ombro já curvado, o olhar turvo, o passo preso, a tosse seca, o tempo atrás deitado ao vento, as cores da vida numa só, o meu próprio estudo em sépia.»

1 comentário:

Eduardo Aleixo disse...

Um poema, o texto que transcreveste.
Um escritor grande que partiu.
É com dor e saudade que o digo, porque gostava dele e ficou a fazer falta.
Mas nenhuma palavra serve...
Boa noite.
Eduardo