quinta-feira, 12 de março de 2026

O DIREITOLAS DAS SELFIES

 


A légua final dos dez anos de Marcelo na Presidência foi marcada por circunstâncias que fizeram dele uma sombra do que era. 1) o caso das gémeas tinha acabado de vez com o seu estado de graça; 2) anos a palrar de tudo e de nada tinham desbaratado o valor da sua palavra; 3) o comboio de dissoluções parlamentares (seriam, no total, três na Assembleia da República e mais duas nas regiões autónomas) recomendava maior contenção no uso desse instrumento de desestabilização política; 4) o regresso do PSD ao poder dava a Marcelo a possibilidade de se reconciliar com o seu partido de sempre, que o olhava com a desconfiança reservada aos “enfants terribles”. Este foi, talvez, o desiderato mais evidente do seu final de mandato. Reconciliar-se com a sua família política, o que poderá justificar a condescendência com que tratou sempre o Governo de Montenegro. Houve casos de incompetência atroz, com consequências trágicas, que nunca mereceram do PR a exigência de demissão que tinha feito no passado: por muito indecente e má figura que fizessem as duas ministras da Administração Interna, nunca o Presidente exigiu um “novo ciclo”, com a exigência de demissão que levou Constança Urbano de Sousa. Por muito evidente que seja o estado calamitoso em que está o SNS, com sucessivas falhas no INEM, clamorosa incapacidade de gerir recursos, e agora até a recomendação de contenção cega de custos, nunca Marcelo disse o que se impunha sobre uma ministra em cujo ministério acontecem coisas bastante mais graves do que a zaragata do assessor de João Galamba. Marcelo chutou sempre para canto, encolheu os ombros, falou por eufemismos, flauteou a voz. Como na canção, simplesmente não era o Marcelo that we used to know. 

Filipe Santos Costa

CNN (P)