quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

SOBRE O TRUMPANZÉZISMO

Escrevi exaustivamente sobre Trump nestes últimos quatro anos e houve quem achasse que 

exagerava. Escrevi que o que de mais importante em política se passava vinha dos EUA, e houve 

quem achasse que exagerava. Escrevi que 

havia “novidade”, ou seja, criação, como 

criação nas artes, nas letras, no que Trump 

estava a fazer e que este era uma personagem 

carismática no verdadeiro sentido da palavra, 

que é tão abastardada no seu uso corrente, e 

houve quem achasse que era um disparate. Escrevi que o Partido Republicano de Trump se tinha tornado num estendal repugnante de sicofantas pelas benesses do poder e de covardes, vergando-se por interesse a um culto de personalidade maléfico sem princípios, e não houve quem achasse coisa nenhuma porque Trump ainda suscitava 

atenção, mas os republicanos eram uma coisa americana. Escrevi que Trump não era democrata, era autocrático e autoritário, desprezava a lei e a Constituição, era capaz de tudo para servir-se a si próprio, tendo 

cometido ilegalidades a seguir a ilegalidades. Escrevi que havia claros sinais de perturbação mental na personalidade de Trump, um 

narcisista mentiroso patológico (como disse numa intervenção certeira Ted Cruz antes da sua epifania pró-Trump...), e houve quem achasse que era apenas “política” de novo tipo e uma excepcional demonstração de 

inteligência de um génio da economia e da negociação. Escrevi que a melhor definição de Trump dada por um nova-iorquino sobre outro nova-iorquino era que ele era um “con man”, um trapaceiro, um vigarista em tudo, nos negócios e na política. Escrevi que o “trumpismo” estava para ficar mesmo que Biden ganhasse as eleições. Escrevi que Trump não iria sair a bem e que iria tentar uma espécie qualquer de golpe para se 

manter no poder e de novo passei por exagerado, mas neste último caso já havia bastantes “trumpistas” em Portugal, pelo que na cloaca das redes sociais houve quem jurasse que não, sairia com elegância, etc., etc. Na verdade, por muito que dissesse, estava bastante abaixo do que aconteceu e do que acontece. 

J. Pacheco Pereira 

Público