segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cabral e a amnésia do Portugal de Abril

"Hoje, Amílcar Cabral pouco é lembrado, sobretudo em relação ao 25 de Abril que ainda há pouco voltámos a comemorar. Na escola, Cabral confronta Salazar nos manuais de história de uma matéria quase nunca dada, num excerto convenientemente editado para tapar as vergonhas maiores da escravatura e do colonialismo português. Nas universidades, proliferam sobretudo as cadeiras da chamada “História dos Descobrimentos” ou da “Expansão” e os homens lembrados são outros; salvo raras excepções, Cabral aparece quanto muito nos cursos de literatura através de algum poema seu. Nas exposições comemorativas do 25 de Abril, o seu busto espreita num ou noutro cartaz, mas pouco pode dizer. No cinema português não figura, e nos documentários é protagonista sobretudo no estrangeiro, como no Cabralista de Valério Lopes. Ainda se encontram os seus livros em primeira edição nos alfarrabistas, mas a maior colectânea dos seus textos e discursos — Unidade e Luta, publicada pela Nova Aurora em 1974 — viu apenas uma reedição em Portugal, em 1978, pela Seara Nova (a última edição em inglês é de 2009). O Portugal do 25 de Abril prefere comemorar antes o protagonismo das figuras metropolitanas da “oposição democrática” e dos “capitães de Abril”, como na fórmula do popular filme de Maria de Medeiros — traçando mais uma linha indelével na memória. Como se efectivamente estivéssemos divididos pelo lado de cá e o lado de lá; e o lado de lá, o que rima Cabral ka mori, já se sabe, não interessa."
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"Superar a amnésia sobre Abril requer identificar, nos discursos sobre a história, os legados da “tese da imaturidade política” do sujeito africano, que Cabral denunciou no seu Apelo aos Portugueses em 1970: “Aos ambientes cultos de Portugal, especialmente aos democratas progressistas, incumbe a tarefa de ajudar o povo português a destruir os vestígios virulentos da ideologia esclavagista e colonialista, os quais determinam duma maneira geral o seu comportamento negativo perante as justas lutas dos povos africanos. Por isso mesmo, os meios intelectuais deveriam também vencer a sua mentalidade imperial, feita de preconceitos e desdém sem fundamento pelo valor e capacidade reais dos povos africanos.” Nesse trabalho de memória, é fundamental reconhecer o impulso decisivo dado pelos movimentos de libertação africanos ao 25 de Abril, como sugerido por John Woollacott. Num artigo publicado na Análise Social, em 1983, tornou evidente a ligação entre o PAIGC e o MFA no período que antecedeu o golpe militar. O seu texto inclui o relato de Jack Bourderie no Afrique-Asie: “Quando as notícias sobre o golpe de Lisboa chegaram ao quartel-general do PAIGC em Conakry, foi um pandemónio: os militantes do Partido e os guerrilheiros riam-se, gritavam, abraçavam-se, pulavam — ‘Vês? Ganhámos! Destruímos o fascismo português [...] é graças a nós que o povo português é hoje livre!’ A euforia momentânea dos militantes do PAIGC traduzia a essência da realidade histórica: a Guiné era o frágil elo da cadeia colonial de Portugal e o regime de Lisboa não poderia sobreviver a uma derrota em África.”

Marta Araújo
Público

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