Alexandra Lucas Coelho entrou no mundo da literatura pela porta grande e sem necessidade de visto gold. Em 2013, com o seu primeiro romance, "E a Noite Roda", ganhou o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.Voltou agora com novo romance - "O Meu Amante de Domingo".
Quando peguei no livro e li o primeiro parágrafo, fiquei logo convocado para uma leitura compulsiva. Vejam: "O meu amante de domingo fez uma tatuagem na cadeia. É a cara de uma santa, no peito oposto ao do coração. Ele tem peitos duros, pontudos, ela está entre o mamilo e a axila, quando ele baixa os braços é como se a protegesse. A cadeia foi por abandono da Porta de Armas, o abandono da Porta de Armas por causa de uma mulher. Basicamente, ele largou tudo para foder."
Ontem, já com a leitura bem avançada e a gozar que nem um cabinda, li a prosa encomiástica e casta do crítico do 'Expresso' que cito: "a verdadeira beleza desta prosa está, por exemplo, na imagem de uma nespereira "atravessada pelo sol", cuja sombra é "uma filigrana em movimento, projectada na cal e no anil que os árabes deixaram cá".
Pois bem, eu que não sou crítico literário nem casto, mas apenas um 'voyeur' com prática de cinquenta anos nestas coisas da literatura, vou imitá-lo e destaco duas frases, igualmente, de verdadeira beleza. A primeira: "E enquanto uns meditam na morte, outros comem besugos". A segunda: "Nada como foder para organizar a vida".
Os burocratas meditam na morte. Eu como besugos, leio, tento 'organizar a vida' e, às vezes, atrevo-me a alertar a navegação para a urgência da leitura de um bom livro.
Nota final: leitura não aconselhável a militantes da Juventude Centrista e a Secretários de Estado da Opus Dei.