
Eusébio essencial
por VIRIATO SOROMENHO-MARQUES
Num dos poemas que Manuel Alegre dedicou a Eusébio canta-se a certo passo: "Havia nele a arte e a inteligência/ Do puro jogo e sua matemática." A pureza é aquilo que nas coisas e nas pessoas, por ser simples, íntegro e uno, pode ser esmagado, mas não corrompido ou fragmentado. Politicamente, essa pureza essencial que Eusébio representa pode resumir-se em dois conceitos: pátria e justiça. Nascido em Moçambique, ele é indiscutivelmente português, porque a identidade nacional (a nossa, ou qualquer outra) não é algo que se obtém apenas com a certidão de nascimento, ao contrário do que pensam muitos "nacionalistas", mas um direito que se conquista e defende pelo esforço, com suor e às vezes sangue, de uma vida inteira em que nos damos a uma comunidade de destino. Nascido num império ferido pela ausência de democracia, Eusébio manteve-se fiel ao melhor da identidade portuguesa, que é a sua capacidade de resiliência e inclusão. Não se limitou a aderir ou a subscrever essa identidade. Enriqueceu-a, tornou-se símbolo e rosto de um Portugal que tem todas as cores, por não desistir de ser espírito e projeto. Mas Eusébio, o menino humilde de uma província longínqua de um império periférico, representa também a ideia de justiça. O futebol por ele praticado com génio e cortesia transformou-se numa metonímia da imortal esperança de que o mérito pode frutificar e ser reconhecido, independentemente do berço. Pelo que poderemos ser e não pela nossa origem. Essa pureza do combate leal, onde há guerreiros sem vítimas, onde há valentia sem brutalidade. Uma pureza que é privilégio do desporto, pois na economia é mera ilusão, e na política promessa permanentemente adiada.
DN