Sophia de Mello Breyner no Panteão Nacional
JOSÉ MANUEL DOS SANTOS
Não são os poetas que precisam de nós. Somos nós que precisamos deles e das suas palavras de vida e de morte.
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Tornada exemplo, sinal e testemunha, Sophia ensina-nos a não renunciar e a não recuar. Ensina-nos a recusar e a rejeitar. Ensina-nos “que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser”.
Ensina-nos a não aceitar “a fatalidade do mal”. Ensina-nos a olhar de frente “a sábia e tácita injustiça, a “longa tenebrosa e perita degradação das coisas”, os “conluios e negócios”, a “feroz ganância e fria possessão”, as “máscaras alibis e pretextos”, as “fintas, labirintos e contextos”, a “meticulosa eficaz expedita degradação da vida” (Nestes últimos tempos) – e a dizer não. Ensina-nos a acusar e a recusar “o desencontro/ O limiar e o linear perdidos // (…) A vida errada num país errado/ Novos ratos mostram a avidez antiga”.
Ensina-nos a perguntar: “Deverá tudo passar a ser passado/ Como projecto falhado e abandonado/ Como papel que se atira ao cesto/ Como abismo fracasso não esperança/ Ou poderemos enfrentar e superar/ Recomeçar a partir da página em branco/ Como escrita de poema obstinado?” (Os Erros). Ensina-nos a responder: “Porém restam/ Do quebrado projecto da sua empresa em ruína/ Canto e pranto clamor palavras harpas/ Que de geração em geração ecoam / Em contínua memória de um projecto/ Que sem cessar de novo tentaremos” (Projecto II). Ensina-nos a afirmar: “Sei que seria possível construir o mundo justo/ As cidades poderiam ser claras e lavadas/ (…) A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia/ Cada dia a cada um a liberdade e o reino” (A Forma Justa).
A lei 28/2000, de 29 de Novembro, que define e regula as Honras do Panteão Nacional diz: “As honras de Panteão destinam-se a homenagear e a perpetuar a memória dos cidadãos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignidade da pessoa humana e da causa da liberdade”.
A concessão, pela Assembleia da República, de honras de Panteão Nacional a Sophia de Mello Breyner não será apenas a homenagem justa e necessária à grande poeta, cujo poema sobre o 25 de Abril se tornou um texto fundador da nossa democracia (“Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Onde emergimos da noite e do silêncio/ E livres habitamos a substância do tempo”). Não será só o reconhecimento à mulher universal, à cidadã insubmissa, à deputada à Assembleia Constituinte, que acendeu na sua voz o fervor com que defendia uma liberdade fiel à poesia e à vida. Este tributo a Sophia será, agora e sempre, um alerta, um alarme e um aviso para não nos deixarmos vencer. Será também já o Sim que diremos depois do Não que dissermos.
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