segunda-feira, 15 de abril de 2013

A VOZ DA ÁGUA


A VOZ DA ÁGUA
Palavras voaram andando, a ladeira dos caminhos                                            
tinha pedras soltas e liras que tocavam
acordes no meu coração de criança.              
 Ao regressar a casa, a sonhar,
aferia tudo na balança do meu sentir nervoso
como o pescoço de uma pomba assustada à flor do bico
com que se depenava. Mas o tempo foi-se embora...
Do que restou,
sou isto agora que sou,
sou contos do meu caminho.

São as muitas cantigas de rodas
que, devagar, deslizando ainda vejo nos longes onde brinquei,
merencórias, compassadas modas
do meu  escarlate  torrão Alentejano
a cantar nos longes sozinhos.
Quase lusco-fusco, dentro da minha alma,
as aves regressavam aos ninhos anunciando o tombar da calma noite.
(Eu era pequeno
ao colo da mãe,
a vida era eterna e de mais ninguém;
 pelo braço do pai eu fui um gigante
porque a vida começava nos seus olhos grandes:
-- Era só minha para abraçar o mundo
como o sol além.
 Depois, bem depois
à luz desses sois,
as toadas perdidas
na minha memória,
são as folhas caídas
do meu livro de história!)

Entretanto o tempo crescia.
Maio já lá vinha, cheirava e floria com pujança;
as cores começavam a brilhar com ténues sorrisos de alegria
que, distraidamente nesse tempo em que tudo era possível,
repentinamente acontecia
ficarmos os três emudecidos,
assim não sei como e porquê entristecidos…                             
Depois os primos e os tios chegavam
que a  festa pelas horas se estendia com ralhetes de permeio.   
Brincadeiras de crianças,
hoje um quebrado galho seco
que me  desafia e, à lembrança, se deliberadamente peco.

O meu quintal tinha um alegrete,
de não sei quantas milhas marítimas de sonho,
onde tudo crescia com desmesurado tamanho,
tão imenso, que nesse tempo eu já tinha por tudo a grande inclinação,
uma enorme  predilecção quilométrica,
uma incerteza aritmética
que não aprendi com a minha professora metafórica
na brincadeira a que se chamava matemática;
só que a dona não sei quantas, não me lembra já,
não admitia que nesse alegrete o meu campo de flores tivesse
todas as dimensões que eu quisesse.
Nele se criavam e cresciam mirtilos vermelhos como girassóis
que, postos em vinho branco cobriam a nossa alma de longevidade,
assim como não sei quê, uma parábola, uma química que eu
confeccionava nesse tempo rico da minha fantasia
quando  tinha a paixão das contas de somar…
Depois veio a adolescência.
Os mamilos inchados debaixo da camisa fresca,
botões castanhos de mel à transparência
e, pela manhã, os lençóis manchados,
os pelos no púbis, um suor diferente,
um cheiro forte, intenso a gente…
Eu era quase um homem e crescia
mas, a minha mãe, não fazia que não via.
Falava de tudo abertamente porque tinha o sol na alma limpa
e, nos olhos mansos, lampejos de suave claridade
que enchiam toda a casa de bondade
quando deles rolavam essas bagas cristalinas,
miscíveis em amor imenso e santa poesia!
A minha mãe também tinha
o azul do céu entre as mãos fechadas
e, sempre que as abria,
voavam delas avezinhas canoras de cetim e maresia  
que iam pousar no meu coração.
Por isso a minha mãe era uma faísca que ardia,
um relâmpago que, hoje ainda, me incendeia e alumia.

Junho das amoras, das meloas, das cerejas nas orelhas,
que delicia, eram doces e tão boas, vinha mais tarde.
Mas antes era Maio, eu já o disse: As mocinhas da minha rua
sentavam-se  de maias  com chitas multicor, todas vestidas,
perfumadas de flores garridas, em cadeirinhas baixas,
mesmo no meio da minha porta, todas pintadas; eram tão bonitas,
puras, cativantes, eu beijava-as e depois sorria para todas…
Era o prelúdio do verão.
Rompia quente o estio e um odor morno a axila acelerava o bater do coração.
Água na boca, os frutos quase sazonados por baixo das camisas,
 os segredos do mistério desses altinhos cobiçados…
A temperatura era  bem quente,
Santo António vinha ardente…
Foram, pois, os santos populares
que castamente beijaram tantas virgindades. 
Como dirigíveis aquecidos atravessaram o espaço pelos ares;
atrás das moitas olorosas os pulmões a arfar abrindo-se de pasmos,
consumindo-se de espantos, pela delicadeza florindo as descobertas…

Canícula plena, límpido o astro azul diáfano, quase divino,
à tarde os horizontes vestiam-se de dores.
Eram festivais casados, loucos, grávidos de cores:
Os vermelhos forte, os alaranjados, os rosa e os lilases,
todos derramados na tela convexa, dançavam nos longes;
 o sol poente também caía no meu coração
num arrebol dolente, num desvario aflito, numa avidez enlouquecida
como se alguém deixasse no rosicler vagarosamente a própria vida.
Mas não era apenas o sol a desmaiar-se e a pôr-se:
Foi uma paixão que tive por uma mocinha da minha rua
que brincou comigo em criança, rosada como a maçã camoesa
prometida e… nunca dada…

Depois tombava a noite quente,
cheirava a verão, a cereal maduro.
Nos arrabaldes da cidade as mulheres sentadas à soleira,
todas vizinhas, conversavam da vida triste,
 dos trabalhos, dos maridos,
e as viúvas diziam quem nos dera ainda os ter, mesmo bêbados
eram a nossa companhia,
os pais que os nossos filhos já não têm
mas também são, diziam, a alegria de mulheres paridas
 que deram luz à vida.
Lembro-me de me sentar ao colo duma delas,
chamava-lhe avó querida,
dava-me bolachas com mel, desse tão humano
 que adoça o fel da vida.

Na Avenida havia os mastros populares
e as fogueiras crepitantes.
Barrotes enfolhados de canas verdes,
frescas, farfalhudas, abraçavam-nos,
ligados por cordame enfeitado com bandeirinhas
de cores variegadas,
onde balões coloridos com velas dentro
ficavam dependurados a tremer.
Mastros da minha juventude erguidos,
enterrados no chão batido, regado para ficar mais fresco:
A terra do pão com aromas de alecrim no festão,
cestinhas de flores na noite calma
era a terra da minha mãe, também a minha,
a terra do meu pão da minha vida,
romaria de aromas,
 loendreiro, mentrasto, manjerona, cidreira, madressilvas,
tudo se combinava no nariz,
em todos os sentidos porque a festa ia começar.
0s mastros foram pessoas levantadas  do meu chão moreno,
verticais, que se divertiam pela noite fora.
 Adejavam, como bandeiras, esperanças
ao som das músicas improvisadas
enquanto as horas decorriam com pressa…
A noite emudecida segredava corpos entrelaçados, quase doídos
ou lábios ávidos, impacientes como abelhas
 procuravam as flores abertas.
Muitos casamentos se fizeram nesses mastros de outros tempos:
Segredos, juras, promessas se cumpriram…
Acrianças do futuro guardaram dentro da alma
todas as fragrâncias dessas noites enamoradas.

Além, bem perto, na Adega do Cantinho
 homens de braços dados, irmãos, fechada a roda,
 cantavam toadas lentas,compaassadas
 ao sabor dos pés,
 uma batuta de instintos de raiz telúrica.
Vozes aquecidas escorriam modas,
 cantes dolentes, profundos,
vinho nas gargantas afinadas;
alguém fazia o alto, outro o ponto
e os refrães fortes penetravam os tutanos:
Era a voz da terra dura, do trabalho,
da carência sem vergonha,
a verdade desnudada que se entoava
 na polifónica fraternidade das vozes!
Um petisco simples e não paravam de chorar
acordes do meu sangue, carne viva,
gentes de outrora, tristezas da minha juvenília,
um tempo presente ido que permanece até agora,
camarinhas nos meus olhos enxutos,
uma imensa sede de água fria nos lábios rachados
ainda hoje me afoga a garganta…

Eu estava sentado num banco da Avenida.
No mastro tinha começado o baile:
Sardinha assada, pimentos verdes, frituras, barris de vinho,
 torresmos, tudo fazia fome,
cheiros moravam nos narizes;
a lua pálida, vestida de branco rendilhado, aparecia,
música tocava.
Por detrás das minhas costas
estava a casa onde minha mãe nasceu,
a mesma onde minha avó morreu,
e de onde ela saiu para casar com o meu pai, um dia.
Contava-me que, sendo adolescente,
se sentava num banco, mesmo ali, ao lado de mim,
à luz do lampião da via publica
 lia até ao romper de alva quando o sol era um sorriso para ela.
Então eu olhava esse banco, soletrava-o e também lia.
Ficava pensativo e como a minha avozinha falava em voz alta,
 enternecida, tu não vens dormir, filha Maria, é quase dia,
eu vislumbrava tudo na névoa da distancia,
agarrava esse eco mágico e também via…

A minha mãe é universal, sem naturalidade,
Argentina, Chilena, de Alhos Vedros, Marroquina,
 é do mundo, é perversa, inconsolada, inconformista,
 tirana, toda ela se dá. Em troca recebe flores  ou bofetadas
 mas não desiste de nada.
Ela é a mulher, sonho da água inundando desertos,
a minha mãe é a agonia
e, num instante, é a vida que renasce em cada acto,
 é a vida ressonante em cada vida,
 é cósmica porque é o futuro de todos os seres
 criando tudo o que se é obrigado a perder.
A mãe que tenho é a pintora impressionista do meu coração vadio!

 Já é Outubro, declina a luz,
 a natureza esconde-se, dobra-se sobre ela mesma,
 tapetes de folhas amarelas estendem-se no meu coração
 como beijando uma terra gretada com árvores nuas
 ladeando os caminhos por onde passo.                   
Concertina no olhar do Sol embaciado,
oiço-a com a surdez das coisas  reais demasiado aceleradas.
Eu ando de vagar e não quero que o tempo passe
 tão rápido como corre uma cachoeira de espuma nos meus olhos,
 neste olhar pontiagudo murado por coisas eléctricas escondidas,
mas o tempo corre inexorável,
 inconsciente máquina de guerra
 passa, trucida, mata, renova. Tudo
entrega aos outros, lembranças, teres, haveres,
 por isso morrer é ser mais de alguém e viver menos.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             .
 O tempo soma-se-me em graus, mais ou menos quente,
 condicionado pela distracção dos dias, no fogo dos anos.
Tempo são corolas rebentando em explosões de loucos perfumes
em noites sem sono.
Nada disso tem a ver com a física da luz ondulada no vazio
nem do espaço-tempo encurvado como unidade de medida de duração;
 a eternidade não tem tempo de começo e terminar
 nem a ver com estrelas que ardem na distancia impossível
ou estoiraram sabe-se lá onde.

Tempo é um sonho de fome com a alma em brasa.
-Quero diques, oceanos, torrentes imparáveis varrendo com fúria
a minha secura  neste momento em que ainda existo,
quero a água da minha matriz, mais nada,
quero a minha impressão digital,
quero a minha identidade, mais nada,
mas estou e fico calmo,
calmo como uma cobra que hibernou.
Não falem comigo agora nem mais tarde,
eu só quero água cristalina,
 puríssima como a fala de um  bebé
ao colo da mãe embevecida,
eu só quero a mãe-d'água num lago de cristal
para molhar os meus lábios com suavidade,
eu só quero espelhar-me nele,
 escutar a sereia para adormecer e vestir-me de narciso,
 eu só quero ser eu, agora já
 porque sou belo e místico como uma aurora boreal!

Passam os dias, afinal estou dentro do tempo
 mas, a única certeza é a de que nasci,
vou apodrecer e, com um grito hei-de despertar a beleza,
essa beleza do murmúrio das gotas de vidro cortante,
escutar o som rugidor e bravio das chuvas torrenciais correndo dentro de mim
para tornar mais aplacadas as escarpas da superfície do fundo.

Foram as águas que me levaram e me fizeram flutuar a memória,
as mesmas onde boiei quando fui feto,
precisamente porque as engoli e me limparam as impurezas.
Por isso sou cheiroso e purificado
porque o meu primeiro banho foi o da barriga da minha mãe,
nadei, atravessei atlanticamente vários sonhos
e estou agora a sentir o gotejar dos pingos salgados
num horizonte azul.
A voz da água é a minha memória das coisas,
o meu contacto com o mundo e o meu marcador de origem animal,
por tudo se insinua em mim, transmite-me um sentimento sem peso,
imaterial, que só faz tremer as traves do outro,
um desdobramento que me parte ao meio
mas que também mexe com o meus nervos
sempre que tenho vontade de chorar comigo sozinho.

Sou um cavalo vertiginoso à desfilada
numa planície cheia de outonal melancolia:
Vou em procura de um abrigo numas casas velhas que se avistam.
Tenho sede e fome e ninguém espera por mim
com o restolhar da cama nova para encostar a cabeça
nem uma ração para mitigar a fome antiga,
sequer água de uma velha nora.
Agora marcho, estou cansado,
nem a trote um pouco, a passo lento já.
Hoje andei a sonhar o dia inteiro pelos campos.

A visão da água vai perseguir-me como uma coisa ancestral,
uma bruma cheia de dunas,
uma tantálica recompensa desejada
mas, se um dia puder, bebo-a toda na minha intimidade
sem dizer nada a ninguém que não tenha sede.
Agora só desejo que permaneça intacta a minha lembrança
dependurada no vento como uma flâmula rubra,
quero que a água tenha pernas e corra pelas encostas desta secura,
que lhe bata o vento mas fique presa como a asa ao corpo
da gaivota esguia à poupa de um barco de pesca
tal como também estou em liberdade como o cordel
do balão colorido nas mãozinhas de uma criança tenra.

As cantigas que ouvi no Alentejo,
a  minha cama molhada de manhã,
o pai, a mãe, os primos, os tios,
as brincadeiras  buliçosas,
os homens da Adega do Cantinho,
os mastros, os cheiros,
os pares de namorados,
a minha professora, o alegrete,
o amor nas noites cálidas,
um banco da Avenida que já não existe,
a avó que nunca conheci,
a mãe que não vi sentada a ler pela noite fora,
a namorada da minha rua que não tive,
as maias garridas que olhei,
tudo hoje é um sonho que um dia tive,
uma alegria sem nome que me invade,
uma bênção que me afaga os dias
mas, ainda, um pedaço de tristeza,
uma chuva grossa que me apedreja os vidros,
a memória da água a correr,
a água da memória a encharcar os olhos turvados,
a curva do ribeiro baixo com seixos polidos pelas enxurradas,
essa pressa de ser rio caudaloso
em busca de não encontrar o passado onde o deixámos,
uma ânsia de beijar o mar salgado…

Mas tenho sede, quem me dá da água fresca?
Daniel Nobre Mendes
(Poema concorrente ao Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2013)