A VOZ DA ÁGUA
Palavras voaram
andando, a ladeira dos caminhos
tinha pedras soltas e liras que tocavam
tinha pedras soltas e liras que tocavam
acordes no meu
coração de criança.
Ao regressar a casa, a sonhar,
aferia tudo na
balança do meu sentir nervoso
como o pescoço
de uma pomba assustada à flor do bico
com que se
depenava. Mas o tempo foi-se embora...
Do que restou,
sou isto agora que sou,
sou contos do meu caminho.
sou isto agora que sou,
sou contos do meu caminho.
São as muitas
cantigas de rodas
que, devagar,
deslizando ainda vejo nos longes onde brinquei,
merencórias, compassadas
modas
do meu escarlate
torrão Alentejano
a cantar nos
longes sozinhos.
Quase
lusco-fusco, dentro da minha alma,
as aves
regressavam aos ninhos anunciando o tombar da calma noite.
(Eu era
pequeno
ao colo da mãe,
a vida era
eterna e de mais ninguém;
pelo braço do pai eu fui um gigante
porque a vida
começava nos seus olhos grandes:
-- Era só
minha para abraçar o mundo
como o sol
além.
Depois, bem depois
à luz desses
sois,
as toadas
perdidas
na minha memória,
são as folhas
caídas
do meu livro
de história!)
Entretanto o
tempo crescia.
Maio já lá
vinha, cheirava e floria com pujança;
as cores
começavam a brilhar com ténues sorrisos de alegria
que,
distraidamente nesse tempo em que tudo era possível,
repentinamente
acontecia
ficarmos os
três emudecidos,
assim não sei
como e porquê entristecidos…
Depois os
primos e os tios chegavam
que a festa pelas horas se estendia com ralhetes de
permeio.
Brincadeiras
de crianças,
hoje um
quebrado galho seco
que me desafia e, à lembrança, se deliberadamente
peco.
O meu quintal
tinha um alegrete,
de não sei
quantas milhas marítimas de sonho,
onde tudo
crescia com desmesurado tamanho,
tão imenso,
que nesse tempo eu já tinha por tudo a grande inclinação,
uma enorme predilecção quilométrica,
uma incerteza
aritmética
que não
aprendi com a minha professora metafórica
na brincadeira
a que se chamava matemática;
só que a dona
não sei quantas, não me lembra já,
não admitia que
nesse alegrete o meu campo de flores tivesse
todas as
dimensões que eu quisesse.
Nele se
criavam e cresciam mirtilos vermelhos como girassóis
que, postos em
vinho branco cobriam a nossa alma de longevidade,
assim como não
sei quê, uma parábola, uma química que eu
confeccionava nesse
tempo rico da minha fantasia
quando tinha a paixão das contas de somar…
Depois veio a
adolescência.
Os mamilos
inchados debaixo da camisa fresca,
botões
castanhos de mel à transparência
e, pela manhã,
os lençóis manchados,
os pelos no púbis,
um suor diferente,
um cheiro
forte, intenso a gente…
Eu era quase
um homem e crescia
mas, a minha
mãe, não fazia que não via.
Falava de tudo
abertamente porque tinha o sol na alma limpa
e, nos olhos
mansos, lampejos de suave claridade
que enchiam toda
a casa de bondade
quando deles
rolavam essas bagas cristalinas,
miscíveis em
amor imenso e santa poesia!
A minha mãe
também tinha
o azul do céu
entre as mãos fechadas
e, sempre que
as abria,
voavam delas
avezinhas canoras de cetim e maresia
que iam pousar
no meu coração.
Por isso a
minha mãe era uma faísca que ardia,
um relâmpago
que, hoje ainda, me incendeia e alumia.
Junho das
amoras, das meloas, das cerejas nas orelhas,
que delicia,
eram doces e tão boas, vinha mais tarde.
Mas antes era
Maio, eu já o disse: As mocinhas da minha rua
sentavam-se de maias com chitas multicor, todas vestidas,
perfumadas de
flores garridas, em cadeirinhas baixas,
mesmo no meio
da minha porta, todas pintadas; eram tão bonitas,
puras,
cativantes, eu beijava-as e depois sorria para todas…
Era o prelúdio
do verão.
Rompia quente
o estio e um odor morno a axila acelerava o bater do coração.
Água na boca,
os frutos quase sazonados por baixo das camisas,
os segredos do mistério desses altinhos
cobiçados…
A temperatura
era bem quente,
Santo António
vinha ardente…
Foram, pois,
os santos populares
que castamente
beijaram tantas virgindades.
Como
dirigíveis aquecidos atravessaram o espaço pelos ares;
atrás das
moitas olorosas os pulmões a arfar abrindo-se de pasmos,
consumindo-se
de espantos, pela delicadeza florindo as descobertas…
Canícula plena,
límpido o astro azul diáfano, quase divino,
à tarde os
horizontes vestiam-se de dores.
Eram festivais
casados, loucos, grávidos de cores:
Os vermelhos
forte, os alaranjados, os rosa e os lilases,
todos
derramados na tela convexa, dançavam nos longes;
o sol poente também caía no meu coração
num arrebol
dolente, num desvario aflito, numa avidez enlouquecida
como se alguém
deixasse no rosicler vagarosamente a própria vida.
Mas não era
apenas o sol a desmaiar-se e a pôr-se:
Foi uma paixão
que tive por uma mocinha da minha rua
que brincou
comigo em criança, rosada como a maçã camoesa
prometida e…
nunca dada…
Depois tombava
a noite quente,
cheirava a
verão, a cereal maduro.
Nos arrabaldes
da cidade as mulheres sentadas à soleira,
todas vizinhas,
conversavam da vida triste,
dos trabalhos, dos maridos,
e as viúvas
diziam quem nos dera ainda os ter, mesmo bêbados
eram a nossa
companhia,
os pais que os
nossos filhos já não têm
mas também são,
diziam, a alegria de mulheres paridas
que deram luz à vida.
Lembro-me de
me sentar ao colo duma delas,
chamava-lhe
avó querida,
dava-me
bolachas com mel, desse tão humano
que adoça o fel da vida.
Na Avenida
havia os mastros populares
e as fogueiras
crepitantes.
Barrotes
enfolhados de canas verdes,
frescas,
farfalhudas, abraçavam-nos,
ligados por
cordame enfeitado com bandeirinhas
de cores
variegadas,
onde balões
coloridos com velas dentro
ficavam
dependurados a tremer.
Mastros da
minha juventude erguidos,
enterrados no
chão batido, regado para ficar mais fresco:
A terra do pão
com aromas de alecrim no festão,
cestinhas de
flores na noite calma
era a terra da
minha mãe, também a minha,
a terra do meu
pão da minha vida,
romaria de
aromas,
loendreiro, mentrasto, manjerona, cidreira,
madressilvas,
tudo se combinava
no nariz,
em todos os
sentidos porque a festa ia começar.
0s mastros foram
pessoas levantadas do meu chão moreno,
verticais, que
se divertiam pela noite fora.
Adejavam, como bandeiras, esperanças
ao som das
músicas improvisadas
enquanto as
horas decorriam com pressa…
A noite
emudecida segredava corpos entrelaçados, quase doídos
ou lábios
ávidos, impacientes como abelhas
procuravam as flores abertas.
Muitos
casamentos se fizeram nesses mastros de outros tempos:
Segredos,
juras, promessas se cumpriram…
Acrianças do
futuro guardaram dentro da alma
todas as
fragrâncias dessas noites enamoradas.
Além, bem
perto, na Adega do Cantinho
homens de braços dados, irmãos, fechada a roda,
cantavam toadas lentas,compaassadas
ao sabor dos pés,
uma batuta de instintos de raiz telúrica.
Vozes
aquecidas escorriam modas,
cantes dolentes, profundos,
vinho nas
gargantas afinadas;
alguém fazia o
alto, outro o ponto
e os refrães
fortes penetravam os tutanos:
Era a voz da
terra dura, do trabalho,
da carência sem
vergonha,
a verdade
desnudada que se entoava
na polifónica fraternidade das vozes!
Um petisco
simples e não paravam de chorar
acordes do meu
sangue, carne viva,
gentes de outrora,
tristezas da minha juvenília,
um tempo
presente ido que permanece até agora,
camarinhas nos
meus olhos enxutos,
uma imensa
sede de água fria nos lábios rachados
ainda hoje me
afoga a garganta…
Eu estava
sentado num banco da Avenida.
No mastro
tinha começado o baile:
Sardinha assada,
pimentos verdes, frituras, barris de vinho,
torresmos, tudo fazia fome,
cheiros
moravam nos narizes;
a lua pálida,
vestida de branco rendilhado, aparecia,
música tocava.
Por detrás das
minhas costas
estava a casa
onde minha mãe nasceu,
a mesma onde
minha avó morreu,
e de onde ela
saiu para casar com o meu pai, um dia.
Contava-me
que, sendo adolescente,
se sentava num
banco, mesmo ali, ao lado de mim,
à luz do
lampião da via publica
lia até ao romper de alva quando o sol era um
sorriso para ela.
Então eu
olhava esse banco, soletrava-o e também lia.
Ficava
pensativo e como a minha avozinha falava em voz alta,
enternecida, tu não vens dormir, filha Maria,
é quase dia,
eu vislumbrava
tudo na névoa da distancia,
agarrava esse
eco mágico e também via…
A minha mãe é universal,
sem naturalidade,
Argentina,
Chilena, de Alhos Vedros, Marroquina,
é do mundo, é perversa, inconsolada,
inconformista,
tirana, toda ela se dá. Em troca recebe
flores ou bofetadas
mas não desiste de nada.
Ela é a mulher,
sonho da água inundando desertos,
a minha mãe é
a agonia
e, num instante,
é a vida que renasce em cada acto,
é a vida ressonante em cada vida,
é cósmica porque é o futuro de todos os seres
criando tudo o que se é obrigado a perder.
A mãe que
tenho é a pintora impressionista do meu coração vadio!
Já é Outubro, declina a luz,
a natureza esconde-se, dobra-se sobre ela
mesma,
tapetes de folhas amarelas estendem-se no meu
coração
como beijando uma terra gretada com árvores
nuas
ladeando os caminhos por onde passo.
Concertina no
olhar do Sol embaciado,
oiço-a com a
surdez das coisas reais demasiado
aceleradas.
Eu ando de
vagar e não quero que o tempo passe
tão rápido como corre uma cachoeira de espuma
nos meus olhos,
neste olhar pontiagudo murado por coisas
eléctricas escondidas,
mas o tempo
corre inexorável,
inconsciente máquina de guerra
passa, trucida, mata, renova. Tudo
entrega aos outros,
lembranças, teres, haveres,
por isso morrer é ser mais de alguém e viver
menos. .
O tempo soma-se-me em graus, mais ou menos
quente,
condicionado pela distracção dos dias, no fogo
dos anos.
Tempo são
corolas rebentando em explosões de loucos perfumes
em noites sem
sono.
Nada disso tem
a ver com a física da luz ondulada no vazio
nem do
espaço-tempo encurvado como unidade de medida de duração;
a eternidade não tem tempo de começo e terminar
nem a ver com estrelas que ardem na distancia
impossível
ou estoiraram sabe-se
lá onde.
Tempo é um
sonho de fome com a alma em brasa.
-Quero diques,
oceanos, torrentes imparáveis varrendo com fúria
a minha
secura neste momento em que ainda existo,
quero a água
da minha matriz, mais nada,
quero a minha
impressão digital,
quero a minha identidade,
mais nada,
mas estou e
fico calmo,
calmo como uma
cobra que hibernou.
Não falem
comigo agora nem mais tarde,
eu só quero
água cristalina,
puríssima como a fala de um bebé
ao colo da mãe
embevecida,
eu só quero a
mãe-d'água num lago de cristal
para molhar os
meus lábios com suavidade,
eu só quero
espelhar-me nele,
escutar a sereia para adormecer e vestir-me de
narciso,
eu só quero ser eu, agora já
porque sou belo e místico como uma aurora boreal!
Passam os dias,
afinal estou dentro do tempo
mas, a única certeza é a de que nasci,
vou apodrecer e,
com um grito hei-de despertar a beleza,
essa beleza do
murmúrio das gotas de vidro cortante,
escutar o som
rugidor e bravio das chuvas torrenciais correndo dentro de mim
para tornar mais
aplacadas as escarpas da superfície do fundo.
Foram as águas
que me levaram e me fizeram flutuar a memória,
as mesmas onde
boiei quando fui feto,
precisamente
porque as engoli e me limparam as impurezas.
Por isso sou
cheiroso e purificado
porque o meu
primeiro banho foi o da barriga da minha mãe,
nadei,
atravessei atlanticamente vários sonhos
e estou agora
a sentir o gotejar dos pingos salgados
num horizonte
azul.
A voz da água
é a minha memória das coisas,
o meu contacto
com o mundo e o meu marcador de origem animal,
por tudo se
insinua em mim, transmite-me um sentimento sem peso,
imaterial, que
só faz tremer as traves do outro,
um
desdobramento que me parte ao meio
mas que também
mexe com o meus nervos
sempre que
tenho vontade de chorar comigo sozinho.
Sou um cavalo
vertiginoso à desfilada
numa planície cheia
de outonal melancolia:
Vou em procura
de um abrigo numas casas velhas que se avistam.
Tenho sede e
fome e ninguém espera por mim
com o
restolhar da cama nova para encostar a cabeça
nem uma ração
para mitigar a fome antiga,
sequer água de
uma velha nora.
Agora marcho,
estou cansado,
nem a trote um
pouco, a passo lento já.
Hoje andei a
sonhar o dia inteiro pelos campos.
A visão da
água vai perseguir-me como uma coisa ancestral,
uma bruma
cheia de dunas,
uma tantálica
recompensa desejada
mas, se um dia
puder, bebo-a toda na minha intimidade
sem dizer nada
a ninguém que não tenha sede.
Agora só
desejo que permaneça intacta a minha lembrança
dependurada no
vento como uma flâmula rubra,
quero que a
água tenha pernas e corra pelas encostas desta secura,
que lhe bata o
vento mas fique presa como a asa ao corpo
da gaivota
esguia à poupa de um barco de pesca
tal como também
estou em liberdade como o cordel
do balão
colorido nas mãozinhas de uma criança tenra.
As cantigas
que ouvi no Alentejo,
a minha cama molhada de manhã,
o pai, a mãe,
os primos, os tios,
as
brincadeiras buliçosas,
os homens da Adega
do Cantinho,
os mastros, os
cheiros,
os pares de
namorados,
a minha professora,
o alegrete,
o amor nas
noites cálidas,
um banco da Avenida
que já não existe,
a avó que
nunca conheci,
a mãe que não
vi sentada a ler pela noite fora,
a namorada da
minha rua que não tive,
as maias
garridas que olhei,
tudo hoje é um
sonho que um dia tive,
uma alegria
sem nome que me invade,
uma bênção que
me afaga os dias
mas, ainda, um
pedaço de tristeza,
uma chuva
grossa que me apedreja os vidros,
a memória da
água a correr,
a água da
memória a encharcar os olhos turvados,
a curva do
ribeiro baixo com seixos polidos pelas enxurradas,
essa pressa de
ser rio caudaloso
em busca de
não encontrar o passado onde o deixámos,
uma ânsia de
beijar o mar salgado…
Mas tenho sede,
quem me dá da água fresca?
Daniel Nobre Mendes
(Poema concorrente ao Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2013)
(Poema concorrente ao Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2013)
