Touro
A cidade de Beja luta contra uma inexplicável e cada vez mais acentuada falta de identidade. Falta de genuinidade. De amor-próprio. De autoestima. Ainda este mês, um inquérito da Deco Proteste avaliou as capitais de distrito do País. Um estudo focado no ponto de vista dos seus habitantes sobre um vasto conjunto de critérios como o emprego, a saúde, o ambiente, a cultura ou a mobilidade. Beja não aparece no topo de nenhum deles. Aliás, no conjunto, os bejenses acham a sua cidade péssima para viver. E essa situação não advém do concreto. Beja, é, de facto, uma cidade com bastante qualidade de vida. Tranquila. Pacata. Segura. As questões que desmotivam os seus cidadãos não se colocam do ponto de vista material. Mas antes do lado da emoção. Dos afetos. Da memória coletiva. Hoje, os bejenses rejeitam a sua cidade porque ela já nada lhes diz. Já não a conhecem. Não aconteceu a necessária transição cultural, identitária e sentimental entre gerações. Partiu-se o elo. E os despojos que hoje restam de Beja são meros e cada vez mais apagados relatos de um tempo ausente. Que não se revelam no presente. Nem deixam qualquer margem de manobra para o futuro. Beja já não existe. Porque os bejenses deixaram de querê-la. De a amar. De a descobrir. De a sentir. Excluindo, talvez, a Ovibeja, nenhum outro estímulo é capaz de agitar o âmago dos bejenses em função da sua terra. Beja necessita de tornar urgentemente aos seus símbolos maiores, à sua identidade, à sua história, aos seus poetas. O espírito de Mariana Alcoforado vagueia nas ruínas do Convento da Conceição. Os amores de Almutâmide estão devassados num monumento patético e abandonado. As águias reais já não circundam a torre do castelo. A praça da República é um reles parque de estacionamento. E era lá, no centro da praça, num irrepetível chão de calçada portuguesa, que estava desenhada a cabeça de um touro. O touro da lenda de Beja. O touro da nossa identidade, o nosso símbolo maior, como referiu José Rabaça Gaspar, esta semana, na apresentação do livro Lendas de Beja. O símbolo maior da própria Europa. Que agora está tão atingida na sua génese cultural, como Beja moribunda está.
Paulo Barriga
Diário do Alentejo
