quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

ALIMENTO

A MINHA MÃE AMASSOU HOJE O NOSSO PÃO
LOGO MAIS À TARDINHA O FORNO VAI COZÊ-LO
DA FOLHA DA FACA A MANTEIGA CAIRÁ
E MAIS SABOR A MINHA BOCA DEGUSTA DELICIADA
MOSTRANDO DE UMA VEZ POR TODAS
QUÃO PRIMÁRIO É O COMER
FEITO DE FOME INCONTIDA
NUMA ÂNSIA DESMEDIDA
TÃO VELHA TÃO PRIMITIVA
RADICALMENTE ANCESTRAL
QUE ACONTECE SEMPRE E SEMPRE
A UM ESFAIMADO ANIMAL
QUER SEJA OU NÃO DELICADO
PROFANO OU CELESTIAL
A MINHA MÃE É LINDA
PORQUE MISTUROU O AMOR COM A FARINHA
ENQUANTO FERMENTAVA E CRESCIA EM MIM
UMA VONTADE MEDONHA
ESSA VONTADE SOFREGAMENTE ESTRANHA DE TRINCAR
UMA VONTADE ENLOUQUECIDA
UMA RAIVA COMPULSIVA
DE ROER E MASTIGAR
A MINHA MÃE É O MEU ESPELHO DE MEMÓRIA
NELE ME OLHO E QUANDO OLHO A VEJO BELA AINDA
MAIS BELA SIM MAIS BELA AINDA
A SORRIR E A CANTAR AO SEU MENINO
AO LADO DO ALGUIDAR DE AMASSAR
NO FUNDO DOS MEUS NERVOS
À TONA DO PALADAR
POR TUDO É MAIS AUTÊNTICA AGORA A MINHA MÃE
ATÉ DEIXOU CAIR DAQUELE OLHAR TÃO GRANDE E PURO
A LÁGRIMA SALGADA QUE DÁ GOSTO AO PÃO MADURO
DOS DIAS EM QUE RUMINO DESDE O ALMOÇO AO JANTAR
A MINHA MÃE É UMA ESPIGA CHEIA
SAZONADA
CEIFADA EM TERRA LONGE ALÉM DO HORIZONTE
EM TERRA ARDENTE DEBULHADA ALÉM DO MAR
UM GRÃO AMADURADO
MEU GRÃO MORENO
MEU GRÃO CHEIROSO
BORRIFADO COM ESSÊNCIAS TRANSPARENTES
DE UNS OUTROS OLHOS QUAISQUER
DOS MEUS OLHOS POR EXEMPLO
QUE SE NÃO CANSAM DE OLHAR
O MEU PÃO DE TRIGO
O MEU PÃO SALGADO
O MEU PÃO DE FOME
O MEU PÃO DE ANTANHO
O MEU PÃO DE HOJE
O MEU PÃO DE SEMPRE
O MEU ALIMENTO QUENTE
BESUNTADO DE TERNURA
TRANSFIGURADO EM MULHER

Daniel Nobre Mendes
10-03-10

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