segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O SISTEMA CHAFURDA

 


O partido de Ventura não vive de quotas de militantes nem de bengaleiro. Vive, cada vez mais, do apoio de doadores e simpatizantes empresariais que sabem o que esperam em troca de um partido que promete desregular, proteger e lançar o caos sem fazer perguntas. Isto não é antissistema. É, bem pelo contrário, o mais antigo que existe: capital a comprar acesso ao poder, apenas com uma bandeira nova a tapar a operação.

Depois, existe a implementação institucional, e o caso Luís Neves é o exemplo perfeito. Não será coincidência que o alvo preferido deste partido seja precisamente alguém que, como diretor da PJ, liderou investigações a grupos como o 1143 e o Movimento Armilar, estruturas apontadas como estando próximas de sectores do Chega. Ventura não está e nunca esteve a defender qualquer integridade do Estado. Está a atacar politicamente alguém que, pelo cargo que anteriormente ocupou, conhece de perto redes que interessam ao escrutínio público. A ofensiva contra o atual ministro da Administração Interna pode, assim, ser lida como uma tentativa de condicionar uma das áreas onde se “joga” parte do verdadeiro poder: a segurança, os polícias e a informação sobre o que rodeia este partido, bem longe dos discursos de bancada.

Finalmente, os média, provavelmente o fragmento mais relevante de todos. Nenhum partido conseguiu interferir tanto, tão diretamente, na agenda mediática. Nenhum transformou uma moção de censura destinada a perder numa manhã inteira de cobertura em direto, quatro horas de audição ao ministro, como se o resultado estivesse em suspenso. Cada polémica anunciada é amplificada antes de ser verificada, demasiadas acusações viram manchete antes de virarem facto, com parte do jornalismo a tratar fontes de credibilidade muito diferentes como se fossem iguais. Como se já não coubesse a distinção nem o sentido crítico que a profissão exige. Que tenha existido pouco ou nenhum jornalismo a ligar estes pontos simples é mais revelador do que parece. Os média não cobrem o partido de extrema-direita: alimentam-no. E já o fazem há mais de três anos, ainda antes de este se ter tornado sistema.

Gonçalo Ribeiro Teles  (Visão)

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