Anda por aqui um paisano em ginásticas permanentes para evitar o défice orçamental, fazendo adeus aos bifes, costeletas e associados, recorrendo com crescente assiduidade aos escaravelhos assados e baratas fritas para garantir a ingestão de proteína animal, mentalizando-se para um futuro vegetariano com escassos e saudáveis croquetes de capim e rissóis de urtigas, e, de repente, aparece um ministro a compeli-lo a pagar a grande dívida contraída junto do camarada Zédu. Estando em causa o prestígio do país (a que alguns, monárquicos e republicanos, maldosamente, continuam a chamar 'piolheira'), que remédio senão pagar? Pobre, mas honrado, escolhi o pagamento a prestações com juros indexados à euribor com um spread de 5% (é carote, mas pelo meu país e pelo bem-estar da real família Dos Santos estou disposto a todos os sacrifícios).
Estando eu nestes preparos, convencido de que estaria para breve o fim dos meus calotes, e eis que me surgem uns fabianos a anunciar que devo muito ao Ronaldo. Porra!, que não me deixam sossegado. É certo que vi o Ronaldo jogar, durante vinte anos, mas pensei que as duzentas e quarenta mensalidades que paguei aos canais televisivos que transmitiam os jogos eram suficientes para considerar as contas saldadas. Pelos vistos, enganei-me, e lá vou pagar mais um balúrdio de 'atrasados'. Sim, vou pagar porque a minha costela caridosa não suportaria ver o Ronaldo, desempregado, sem clube nem selecção, viver e morrer miseravelmente, como aconteceu, no século XVI, a um tal Luís de Camões, vedeta da versalhada, muito conhecido por marcar cantos directos (só nos 'Lusíadas' foram dez, embora o VAR do tempo do Salazar só tenha considerado nove, por causa das cenas eróticas, ao tempo tidas como equiparadas a 'offside').
Na sequência destas experiências traumatizantes, e como gato escaldado de água fria tem medo, decidi tomar as seguintes medidas cautelares:
1- Acabar com as visitas à Ericeira para não correr o risco de me cruzar com um animal feroz a exigir que lhe pague o muito que lhe devo;
2- Deixar de frequentar restaurantes caros na zona do Guincho, não vá alguém, armado em 'Lelé da Cuca', pedir-me uma choruda esmola para o terceiro membro da Santíssima Trindade, por conta da dívida ainda não reclamada;
3- Atirar para o lixo a mesa de pé-de-galo para evitar que as vozes roucas do Oliveira e Costa e do Rendeiro me venham, lá do Além, madrugada alta, solicitar a regularização das facturas emitidas no tempo da 'democracia de sucesso', e que estão por cobrar.
Espero que resulte, caso contrário lá tenho de ir ao Banco de Fomento pedir um financiamento intercalar até me chegarem às mãos umas verbas do PRR ou, talvez melhor e com menos burocracias, ir à Câmara de Caminha apresentar um projecto maluco com adiantamento de rendas relativas aos próximos trinta e oito anos.