quarta-feira, 12 de novembro de 2014

DE OUTROS

Com arfante curiosidade precipitei-me para a entrevista do dr. Cavaco ao ‘Expresso’. Sei que o homem só debita banalidades, mas a minha malvada bisbilhotice impele-me a desejar, ansiosamente, o contrário. Aquele que não tem dúvidas e raramente se engana não decepciona, pela constância de uma aflitiva mediocridade. O que impressiona é a permanente insistência de jornalistas em subtrair daquela cabeça algo que interesse à comunidade. Nada, o vazio.
Já se sabe que não vai convocar eleições; que patrocina "pontes de diálogo" entre os partidos; que no resto da Europa é assim que se faz; que "deixem o Governo governar". Também se sabe do verdete que demonstra pela simples invocação do nome de Sócrates, ao ponto de ainda não ter cumprido o ritual de o condecorar, após o mandato; e da indecorosa insígnia ao inepto Barroso; do conflito cultural exposto com a ignorância de ‘Os Lusíadas’ conterem dez cantos; e de Thomas Mann não ser Thomas More. A lista é saborosamente longa e fastidiosamente desagradável. Serve a quem, aquele texto?
O dr. Cavaco é a interrupção de uma linha de unidade que a II República resgatou, após 48 anos de santo sepulcro. Mas Salazar possuía conhecimentos gerais; frequentava, com mão atenta, o padre Vieira, e escrevia num português clássico, ocasionalmente para ludibriar os próprios amigos, como o fez no Discurso da Sala do Risco, monumento de hipocrisia sem par.
O dr. Cavaco não resiste à mais vulgar sabatina. Tem uma repulsa instintiva pela literatura, pela História, pela comparação. E quem o ouve ou lê tem de tomar precauções: a confusão ignara que estabelece entre números e letras, embora correspondendo a um mal de época, filia-se na noção abstrusa de que a História é uma verificação abstracta e sem sentido, e de que a sua análise não é fiável.
Baptista-Bastos
CM