Fernando Dacosta é, habitualmente, um reaccionário mascarado de observador e cronista neutro ou mesmo de progressista, enfim, um reaccionário chic. Frequentador de salões da 'soi-disant' elite salazarista, incluindo os do próprio Salazar, nos seus escritos sempre encontramos uma palavra de encantamento pelos dotes intelectuais de António Ferro, um adjectivo simpático para a poetisa Fernanda de Castro, uma chamada de atenção para o brilho de Franco Nogueira, um elogio ao elevado gosto musical do cardeal Cerejeira, um louvor ao ditador de Santa Comba.
Porém, há dias, em crónica publicada no jornal «I», e tendo como pretexto a frieza de um aeroporto, a dureza dos bancos de espera e o atraso de um voo, saltou-lhe a máscara e a chinela e em linguagem de caceteiro miguelista ou de legionário salazarista teve este sincero desabafo: "De súbito sinto saudades, imensas, das fúrias de Alberto João (quando era Jardim) contra 'a canalha de Lisboa', contra 'os cubanos do Continente' - oh, como fazem falta às ilhas as ameaças dos seus impropérios!'
E Alberto João, alma sensível, nesse mesmo dia, para gáudio do Dacosta, sobre a cobertura noticiosa da campanha eleitoral, na Madeira, disse a um nativo: "Falem com os comunas da televisão, que eles põem tudo. Puseram um vigarista à frente daquilo. Isso é para resolver a seguir com o Maduro: Tudo para o olho da rua".
Que alívio, Dacosta, ele voltou. E vai pôr tudo na rua. Não haverá mais atrasos nos voos do Funchal e a paz reinará nas redacções da RTP e RDP e nos salões reaccionários. Ainda há justiça neste mundo!
