
A D. Balbina, empresária em nome individual, estabelecida com um lugar de frutas e hortaliças era uma mulher conhecida pelas suas ideias "avançadas para a época" (situemo-nos no tempo: início dos anos sessenta. E no lugar: uma pacata cidade de província) e já então defendia o liberalismo na economia e nos costumes.
Coerente com a sua ideologia, lá ia fazendo uns bons negócios ao balcão e, nos intervalos, umas manobras entre lençóis com um pequeno lavrador, seu fornecedor de batatas e hortaliças.
O marido, contínuo na Câmara Municipal, roliço de formas (e por isso tratado pelos amigos pelo carinhoso alcunha de 'Pancinha'), homem cordato, fiscal-de-linha nas horas de lazer e legionário por chamamento da Pátria, de tudo sabia e tudo compreendia. E assim decorria, calma, a vida no perímetro do triângulo amoroso.
Eis senão quando surgiu no espaço comercial da liberalíssima D. Balbina um malandreco, pintor de paredes e tectos, bem apessoado, sedutor, que depois da compra de um molho de grelos facilmente convenceu a piedosa senhora a interromper a mastigação lenta de uma maçã e a iniciarem uma sessão amorosa que, à falta de cama e lençóis, ali mesmo aconteceu em cima de umas sacas de batatas.
Nos meios pequenos, estas coisas sabem-se. E um alcoviteiro correu para o café do Isaclino para avisar o lavrador e amante da D. Balbina. Foi o fim da macacada: o homem saiu a correr e a correr chegou à Câmara onde, no 'hall' pejado de grandes, médias e pequenas individualidades, berrou: «'Pacinha', olha que a Balbina anda a pôr-nos os cornos!».
A partir desse dia, o 'Pancinha' passou a ser conhecido pelo 'Boi Contínuo' e o lavrador por 'Queixinhas'.