
«Num mosteiro de Beja, antiquíssimo, cuja fachada gótica, posta no alto duma escadaria de pedra, concita o forasteiro à contemplação embevecida, conservaram-se, me disseram, por muitos anos, preciosas recordações do velho tempo. As últimas freiras que lá houve já um pouco secularizadas pelos pagodes que D. João V mandava ensinar às suas colegas de Odivelas, quando os amantes maçados não vinham às entrevistas nocturnas, expediam-lhes por uma alcoviteira, sob a forma de brinde, algumas das belas curiosidades do mosteiro, baixos-relevos, colgaduras, trípticos, gomis, painéis, e peças de mobília, em termos de acenderem a carne aos machos lassos, pela espórtula da bugiganga, paga adiantada. Ultimamente, houve lá uma abadessa, cavaqueadora dengosa e emérita magana, que convidava os altos funcionários civis a alegres merendas, donde saía bêbeda e saltona, a acompanhar no cravo versos de Bocage.
Conheci um secretário-geral que lhe apanhou magníficas prebendas, e um monsenhor, bispo quase que não desdenhava fazer sentir à freira rábida, nas ocasiões de satiríase, o quanto lhe agradaria avolumar a sua colecção, com uma ou outra peça artística do convento. Assim foram abalando da casa as belas coisas; creio que não há em Beja homem nenhum de setenta anos, que não possua no seu gabinete, em paga duma noite, alguma recordação da zorra professa.»
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FIALHO DE ALMEIDA
'OS GATOS'