segunda-feira, 11 de abril de 2016

CARTÃO DE VISITA

Luís Filipe Castro Mendes - Ministro da Cultura

domingo, 10 de abril de 2016

GRANDE FEIRA DE PAPÉIS DO PANAMÁ




À venda, bom preço, papéis do Panamá.
Juros elevados. Sem impostos. Lavados.
Máxima higiene.


Por cada arroba oferecemos um chapéu.

VISITE-NOS

O BALLET DE JOÃOZINHO S.

CARTAS PARA Q.





Empada, 10 de Agosto de 1971


Q.,

O correio, o sempre ansiado correio, chega aqui semanalmente, trazido por uma avioneta civil em voo regular, ou quando aterra um helicóptero ou uma avioneta 'Dornier' que por aqui passam em missões diversas: evacuações de feridos ou doentes, visitas de altas patentes, coisas assim. Mal os aparelhos picam sobre o quartel, pedindo segurança na pista, o rebuliço instala-se. Os da segurança vão de 'Unimog' para a pista. Os restantes correm para a porta da secretaria e esperam pelo saco que traz as cartas, os aerogramas, as encomendas.
Então, o cabo encarregado do SPM (Serviço Postal Militar) abre o saco e começa a chamar pelo nome dos destinatários. É uma festa para os que têm correio e um desgosto de abandonado para os que não têm uma carta, um aerograma, uma palavra dos pais, irmãos, namorada, madrinha de guerra. Quase um drama.
Hoje, chegou correio e as cenas repetiram-se, mas desta vez com um pormenor interessante: no fundo do saco, sem envelope, umas folhas de carta dobradas. Perante o espanto do cabo SPM disse-lhe "Essa carta é para mim". Por não trazer envelope e pelo cor-de-rosa das folhas, só poderia ser para mim. Ainda disse ao cabo "Se quiseres confirmar, verifica o "P." da primeira página e o "Da tua Q." que vem na última". Não foi necessário. Não me tinha enganado. Era para mim.
A "Segunda Repartição", a pide militar, quis mostrar serviço e violou a correspondência sem brio profissional nem competência. Podiam ter feito desaparecer a carta, mas preferiram dizer-me que a vigilância continua. Rasgaram o envelope, leram a carta, analisaram o conteúdo, talvez o tenham considerado inofensivo ou, mesmo, piegas e deixaram as folhas no saco do correio de Empada.

Sabes desde que nos conhecemos que não gosto da tropa. E cada vez gosto menos da tropa. E é fácil perceber porquê:  é porque, na tropa, os cavalos têm nome e os homens têm número; porque, na tropa, a dotação para alimentação de um cavalo ou de um cão é superior à dotação para a alimentação de um soldado; porque, na tropa, os eunucos têm a promoção garantida; porque foi a tropa que veio de Braga a Lisboa para matar a República; porque a tropa sempre cheirou, em sentido e sem franzir o nariz, o chulé das botas que o Salazar lhe pôs nos ombros, por cima dos galões; porque é da tropa que saem os oficiais para a Legião, Mocidade Portuguesa, para a Polícia de Segurança Pública, Guarda Nacional Republicana; porque da tropa saiu o director do campo de concentração do Tarrafal; porque a PIDE à tropa foi buscar os homeros, os graças, os pais; porque são da tropa os tenentes, capitães, majores e coronéis da Censura; porque a tropa expulsou e entregou à PIDE o general Humberto Delgado e o capitão Varela Gomes; porque a tropa ocupou e patrulhou a minha cidade, depois do assalto ao quartel levado a cabo por um grupo de românticos por quem sinto, sempre e crescentemente, a maior admiração; porque a tropa permitiu, perfilada e em silêncio, a humilhação dos militares da Índia, pelo simples facto de estarem vivos; porque a tropa 'imediatamente e em força', sem sequer discutir, embarcou para uma guerra colonial que se arrasta sem fim à vista; porque a tropa não faz perguntas porque percebe tudo à primeira (é o que dizem os cartazes colados nas paredes do quartel de Mafra); porque a tropa aceita, de calças em baixo e de cu para o ar, o papel de ordenança dos facínoras da PIDE e viola correspondência sem brio profissional nem competência. E a tropa, esta tropa que assim actua, pretende ser a "reserva moral da Nação". Porca miséria, suprema abjecção.

Salvam-se duas ou três dúzias de oficiais que sabem ler, sabem expressar-se sem recurso constante ao macho, ao casernícola linguajar, sabem pensar, que já contestam e, alguns, até conspiram (apercebi-me disso por conversas que ouvi no clube de Oficiais do Quartel General em Bissau, quando lá estive). Mas é pouco, muito pouco. Não dá para recuperar a honra perdida desta instituição que, há muito, constitui o pilar principal deste fascismo rústico, beato, de falinhas mansas, voz esganiçada, amaricada, até, que à tortura chama 'safanões dados a tempo' e ao campo de concentração, de morte lenta, do Tarrafal, cândidamente, chama colónia penal, tão bem corporizado por essa figura sinistra que nos chegou de Santa Comba com passagens pelo seminário e Universidade de Coimbra, esse António, esse Oliveira, esse Salazar, esse filho-da-puta.

Antes de terminar esta carta amarga, onde exprimo a revolta e o nojo, deixo aqui formulado um desejo: oxalá que os pides fardados da "Segunda Repartição" a abram e a leiam. Ficarão a saber o que penso deles, dos chefes deles e dos patrões deles. Puta que os pariu, ámen!

Destilei o fel, aliviei. Restam os

beijos doces.
Aí vão e são para ti.

P.

sábado, 9 de abril de 2016

"IGUALDADE"

'Igualdade' - Escultura em barro de Xavier Correia (1994)











Deus disse e o Homem registou em Declaração Universal "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade".
E o escultor, modelando o barro, deixa-nos testemunho da realização da divina vontade. Reparem na liberdade, na dignidade, no espírito fraterno de ambas as figuras representadas. E mais: notem como o pequenito, apesar de ter tido problemas de crescimento, tem um papel decisivo na harmonia, no equilíbrio do conjunto. E assim se prova, mais uma vez, que os homens não se medem aos palmos.

A ACÇÃO CULTURAL, SEGUNDO JOÃOZINHO S.



(Surripiado ao blogue "Entre as Brumas da Memória")

CARTAS PARA Q.




Bissau, 21 de Janeiro de 1973


Q.,


"O quartel entra imediatamente em prevenção rigorosa. Passe revista ao arame farpado". Foram as últimas palavras. Antes delas, secamente, veio a notícia da boca do comandante: "Mataram o Amílcar Cabral."
E foi assim que fiquei a saber, antes de todos os outros que não estiveram metidos na conspiração, da morte do Amílcar Cabral, em Conacri, República da Guiné.
Explico melhor e com mais detalhe: estava de oficial de dia no Comando da Defesa de Bissau e as horas passaram calmamente ao ritmo das rotinas habituais próprias deste tipo de funções - formaturas, inspecções de casernas e refeitório, provas do rancho, assistência às refeições, almoço e jantar das praças, assinaturas de autorizações de saída de viaturas e pessoal. As merdas do costume.
Às oito da noite, entrou-me no gabinete o ordenança do comandante com uma mensagem urgente para me apresentar imediatamente no comando. Lá fui.
E no comando estavam o comandante, o segundo-comandante, o chefe do Estado-Maior, o major de Informações. Cheirou-me a esturro. Apresentei-me com os salamaleques militares que se usam nestas ocasiões e esperei.
Não esperei muito antes que o comandante disparasse: "Então, nosso alferes, novidades?". Sem perceber muito bem o que se estava a passar, respondi: "Nada de especial. O dia correu normalmente: formaturas, inspecções, rancho. Nem o piquete teve de sair (como somos 'Defesa de Bissau', cada vez que se ouve um tiro, em Bissau ou arredores, lá vai o piquete saber o que se passou), a ronda não reportou nenhum problema com as patrulhas (há vinte e uma patrulhas nossas, diariamente, que percorrem as tabancas que cercam a cidade). E o comandante, ainda com rodeios: "E novidades militares?" "Não há", respondi.
Então, o comandante, decidido, entrou directamente no assunto. Deixo o diálogo curto:

Comandante - Há, há! Mataram o Amílcar Cabral.

Eu - Quem?

Comandante - As tropas.

Eu - Quais?

Comandante - Parece que as dele. O quartel entra imediatamente em prevenção rigorosa. Passe revista ao arame farpado.

Assim, foi assim, de forma aparentemente ingénua, simples, breve, sem burocracias, sem papel azul, que me foi comunicada a criminosa morte de um dos mais prestigiados dirigentes independentistas africanos.
Saí acabrunhado e fui para o gabinete do oficial de dia, onde peguei na lanterna e disse ao oficial de prevenção, um mentecapto do Barreiro que tem fama (e julgo que proveito) de bufo: "O quartel entrou em prevenção rigorosa. Vou passar revista ao arame farpado." E ele, em pergunta legítima: "Porquê?". E eu em resposta impaciente: "Mataram o Amílcar Cabral." E ele com curiosidade justificada: "Quem?" E eu, irritado e em voz alta: "Uns filhos-da-puta, uns filhos da puta!". E ele, um pouco assustado: "E sabe-se quem são?". Respondi-lhe já no limiar da porta e no limite da paciência: "A seu tempo se saberá.".

Passei revista ao arame farpado, voltei ao gabinete e disse ao bufo: "Podes ir dormir para o teu quarto porque eu não tenho sono e vou ficar por aqui."

Fiquei e aqui estou a contar-te mais um episódio deste crime continuado que é a guerra colonial.
Logo, lá para o fim da madrugada, antes de sair de serviço, ao preencher o formulário do relatório, no campo das 'Ocorrências', vou escrever: 'Nada a registar'.

Despeço-me com o beijo habitual e, hoje, acrescento:


A Bem da Nação,

P. 

O PANAMÁ AQUI TÃO PERTO


sexta-feira, 8 de abril de 2016

ISTO AGORA SÓ À CHAPADA

João Soares pede a demissão do cargo de ministro da Cultura

(Público)

Já estou a imaginá-lo disfarçado de mendigo romeno, ali nas escadinhas da igreja de Nossa Senhora dos Mártires, emboscado, a cocar as portas da Casa Havaneza, da Livraria Sá da Costa, da Brasileira, da Bénard, da Livraria Bertrand, à espera que de uma delas saia o Augusto M. Seabra, de cara a jeito, mesmo a pedir chapadas. Ou, cá em baixo, na rua do Coliseu, casa de tradição palhaceira, disfarçado de empregado de mesa das tascas ali da zona, ementa em punho, a tentar arpoar camones para o bitoque da casa ou o bacalhau à lagareiro, mas sempre de olho na porta do Gambrinus de onde o Vasquinho, a qualquer momento, pode sair, a andar direito ou às curvas, pouco importa. O que importa são as chapadas, as prometidas,  irremediáveis e saudáveis chapadas.
E o que eu daria para ver a cena, ai o que eu daria para ver a cena...

CARTAS PARA Q.

Niassa, Atlântico, 1 de Abril de 1971


Q.,


Há frases que, recorrentemente, a propósito de isto ou de aquilo ou, por vezes, sem propósito nenhum, me vêm à memória. Creio, de resto, que o mesmo acontece com muita gente. Quantas vezes citei: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo» e tive como resposta imediata da pessoa que me escutava: «Gabriel Garcia Márquez - Cem Anos de Solidão».

Hoje de manhã, ainda um pouco ensonado e saindo devagar de uma noite mal dormida, em luta acesa com um vómito que o balanço do navio permanentemente convoca, no meio deste mar violento que logo à saída do Tejo nos recebeu de mau humor, dei por mim a sussurrar para as paredes do camarote «Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gugor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso» e, à falta de interlocutor, eu mesmo acrescentei: « Franz Kafka - A Metamorfose».


Não serei um insecto monstruoso, embora ache que o camuflado, com a bizarria das suas cores, poderia dar uma pele adequada a um bichinho dessa espécie. Talvez sejam  só os sonhos inquietos e as inglórias insónias que adivinho para os próximos dois anos, se os conseguir viver e ,vivendo, para os anos seguintes se as marcas ficarem fundas e a memória começar a sangrar (stress pós -traumático de guerra  se chama e nas Américas se estuda, importação do Vietname, manias de ricos, lá vamos nós dizendo na nossa orgulhosa e cantada pobreza franciscana que se contenta com um piedoso 'apanhado pelo clima'). Talvez sejam as tristezas acordadas e repetidas que já vivi, vivo e certamente continuarei a viver neste Portugal de Além e Aquém Mar, se ao Aquém conseguir regressar são e salvo, como se diz, e eu espero ver acontecer. Que a ausência de Deus venha em nosso auxílio (inspiração Holderliniana).  Pois que aconteça e eu esteja cá para ver, mas sem essa metamorfose monstruosa de que foi vítima o nosso amigo Gugor Samsa e pela qual têm passado, as mais das vezes sem darem por isso, tantos soldadinhos mansos e de chumbo moldável nascidos e criados tanto nas cidades grandes como nas berças, as mais das vezes em famílias respeitáveis e respeitadoras, gentes de princípios, de missas e comunhões, até, obedientes a Deus e a quem manda (Salazar! Salazar! Salazar!) e logo, quase por artes mágicas ou milagre da Nossa Senhora que nos apareceu para anunciar a conversão da Rússia, metamorfoseados em matadores exímios e coleccionadores de dedos e orelhas de pretos conservados em frascos de álcool.  E viva a ditosa pátria que tais filhos tem. Viva!

CLEPTOCRACIAS

Angola pede ajuda ao FMI perante queda dos preços do petróleo

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O BOCHECHINHAS, TÃO QUERIDO, MAS TÃO BIRRENTO

O ministro da Cultura, João Soares, ameaçou na manhã desta quinta-feira dar “bofetadas” aos colunistas Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente na sequência de um artigo de opinião de Seabra que critica os seus primeiros quatro meses de governação.
Através da sua conta na rede social Facebook, o ministro recorda: “Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir, não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia”. Mais à frente no seu post, João Soares diz: “Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também”. 'Público'
O que me ocorre dizer é simples: quando é que alguém tem a coragem de dizer ao Joãozinho que, politicamente, ele é, sempre foi, um cabide que transporta dois nomes (Barroso e Soares) e que, eticamente, morreu quando fez a apresentação da 'biografia' de Domingos Névoa?
Nota: Joãozinho, meu menino birrento, se o seu assessor de imprensa lhe levar cópia deste 'post', corro o risco de ir para a bicha dos condenados às bofetadas. Se tal acontecer, queira deixar na caixa de comentários o dia e a hora em que devo apresentar-me à porta do palácio da Ajuda, para execução da sentença. Em todo o caso previno-o: sou pouco dado ao gesto católico de levar e pedir mais e as suas bochechas são uma tentação...

CARTAS PARA Q.

Bissau, 6 de Abril de 1971 

Q.,

Enfim, em terra. Bissau, porto de Pidgiguiti, onde tudo começou, em Agosto de 1959. Umas reivindicações banais dos estivadores - mais dinheiro para a comida, menos porrada, tudo 'se faz favor'. Um atrevimento intolerável no douto parecer das autoridades coloniais, pouco habituadas a pedidos insólitos ou insubmissões dos indígenas. E vá de porrada com bastões e vá de tiros com as velhas 'Mauser', que estas coisas sabe-se como começam mas não se sabe como acabam. Esta pretendia ser uma lição exemplar e acabou mal. Foi brutal o castigo e no fim apurou-se: mortos pelos cinquenta, feridos pela centena, deportados para S. Tomé, terra de 'acolhimento' de escravos de várias colónias, foram às molhadas. Foi o rastilho, a explosão deu-se uns tempos depois. E, agora, é o que sabemos. Mais: é o que sabemos e o que nos é sonegado. É uma realidade escondida que nos aparece só com o rabo de fora, nos comunicados tímidos, incompletos, espaçados que as Forças Armadas vão largando, a conta-gotas, para os jornais. Os nomes de dois ou três mortos ao serviço da Pátria, doses reduzidas porque é preciso evitar que o desânimo se instale ou, o que também pode acontecer, que a revolta branca também estale. Aí e aqui.


Fomos autorizados a sair do barco. Aproveitei para dar uma espreitadela à cidade, num táxi azul, a cair de podre, e ir aos correios deixar a carta que te escrevi a bordo do 'Niassa'. Tentei telefonar mas foi impossível, as chamadas para Lisboa demoram uma eternidade e não se via o fim da bicha dos que lá estavam pelas mesmas razões. A cidade é pequena, desinteressante, pobre, muito pobre, cheia de tabancas miseráveis, uma delas, por onde passei por sugestão do taxista, conhecida por 'Pilão', uma espécie de 'Intendente' do Terceiro-Mundo, uma imundície pegada, é frequentada por cabos e soldados que lá vão para 'espalhar a Fé', aliviar os tomates, arriscar uma galiqueira. Misérias que o Império tece.

Sem misérias, rica, consta mesmo que muito rica, apenas a ’Casa Gouveia’, do imperial e omnipresente grupo CUF, que monopoliza o comércio interno e externo da ’província’ e obriga os indígenas à cultura do amendoim (mancarra, por aqui chamado), um pouco como os indígenas de aí que obrigados são à cultura do trigo. Um único monumento, a velha fortaleza da Amura onde se refugia e vai planeando batalhas e defesas, avanços e recuos, o estado-maior da tropa. Ruas cheias de gente, paisanos pretos e andrajosos, bajudas de corpos esbeltos embrulhados em longos panos garridos que lhes moldam os corpos e fazem sobressair as bundas redondas (sem pensamentos libidinosos, juro, é o que se aproveita de toda esta paisagem humana), miúdos a correr e a pedir um peso aos passeantes brancos, militares brancos, na maioria da guarnição de Bissau, outros em trânsito de ou para quartéis que ficam lá para o mato, remotos, em teatro de operações, para utilizar a 'sofisticada' linguagem quarteleira.
Pessoas que se cruzam comigo lançam-me de soslaio um olhar triste, submisso, e seguem em passo lento, dengoso, sem vitalidade nem esperança. Vão desbussoladas, rendidas, vencidas - sente-se. Muitas, passam o tempo a tentar arpoar esmolas, tantas, que a cidade parece uma imensa esmolaria. A minha farda, de verde ainda não amarelecido pelo sol africano, com galões de alferes ainda brilhantes, a cheirar a Lisboa e a dinheiro fresco, faz de chamariz. Não me largam. Um, ‘Alfero, dá cinco pesos’ e logo outro 'Alfero, dá cinco pesos' e, depois outro e outro ainda, uma ladaínha.
Cafés e esplanadas cheias de soldados que bebem cerveja e comem sem requinte ostras pelo preço dos metropolitanos amendoins, despejando as cascas em baldes colocados ao lado das mesas. E falam alto, muito alto de batalhas reais e imaginadas, todas com muitos explosivos: tiros de espingardas, metralhadoras, canhões sem recuo, morteiros. Muitos mortos (turras, dizem eles), muitos heroísmos ( dos brancos, é bom de ver). Realidade e ficção misturadas em desabafos necessários, esconjuro de medos e fantasmas. Aproveitam também para engraxar as botas e esticam-se nas cadeiras, imitam a pose dos ricos lá da aldeia quando, no café, recorrem aos serviços do 'graxa'. Têm, finalmente, a seus pés uns humildes (humilhados?) servidores que espalham a pomada com as mãos e, depois, em passes viris de pano sujo que estraleja no ar e só depois poisa nas botas para a acção última do luzimento: engraxadores africanos que, de caixas às costas, enxameiam a cidade e oferecem os seus serviços ao preço da uva mijona. Cerveja, ostras, bota luzidia - vida de luxo ou a ela parecida, pelo menos por uma vez. Com papas e bolos se enganam os tolos, ditado esquecido e que neste momento me ocorre.

O calor e a humidade sufocam-me. Tento afogá-los em Coca-colas, aqui de venda livre, sem o metropolitano proibicionismo parolo e salazarento, muitas e frescas, primeiro, mas depois de começar a sentir um nervoso miudinho, efeito do excesso de cafeína, mudo para as Fantas, umas laranjadas espanholas que, em condições normais, me serviriam para lavar penicos. Também muitas e frescas. O suor vai-se expandindo pelos texteis: já me encharca a camisa e as cuecas. Logo que o sol começou a baixar, as melgas, em nuvens, iniciam trabalhos: picam em todos os centímetros de pele desprotegida e, mesmo, por cima da camisa e das calças. Tive de me refugiar num restaurante com ar condicionado, o ’Pelicano’, junto do porto, onde jantei.

No fim do jantar, o chefe de mesa aproximou-se e logo declinou nome e funções que desempenhava: "Mário, chefe de mesa" e depois de breves perguntas protocolares «estava bom o jantar?» «deseja mais alguma coisa?», logo, e com toda a naturalidade, entrou em improváveis confidências: passado de militante do PAIGC, preso na esquadra de Bissau, ilha das Galinhas, Tarrafal, tudo somado onze anos de prisão. Ouvi interessado mas em silêncio, por prudência. Confissões destas não se fazem com tanta facilidade e logo ao primeiro contacto. E o meu estatuto de 'P.S.' (politicamente suspeito) que a Repartição de Informações, a famigerada 'Segunda', manda carimbar a vermelho no dossier que me dedica, por indicação da benemérita PIDE a que está ligada por fortes e fraternais laços, recomenda recato em situações pouco claras.

Amanhã seremos baldeados do ’Niassa’ directamente para uma lancha de desembarque da Marinha e para um batelão que irá a reboque. Um batelão! nem na Somália se transportam tropas num batelão. Só num 'império' pindérico, com um hortelão a fazer de imperador, e com Santa Comba Dão como capital é que as tropas expedicionárias se deslocam de batelão. Ninguém esperaria iates, mas um batelão??? Rumaremos a Bolama, onde vamos ficar durante um mês para instrução de aperfeiçoamento operacional, treino final para uma guerra a sério cada vez mais próxima.


Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Beijos (muitos) do

P.

ANÚNCIO GRÁTIS


quarta-feira, 6 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.



Empada, 15 de outubro de 1971


Q.,


Participei, ontem, numa operação a sério. No briefing feito na véspera, com a presença de tubarões dos comandos, pára-quedistas e fuzileiros, tropas especiais que foram para o centro do furacão por só elas fazerem operações ofensivas em zona de intervenção do comando-chefe (eufemismo usado para definir zonas libertadas e dominadas pelo PAIGC, como esta onde me encontro), fomos encarregados, como tropa de quadrícula, infantaria sem pedigree, soldadagem do peido-e-coice, de uma emboscada em carreiro que poderia servir de itinerário de fuga para os guerrilheiros atacados. Vinte e quatro horas!
Logo que saímos do arame farpado, mandei parar as tropas, disse ao que íamos, recomendei todo o cuidado e acabei recitando Aragon: "Déjà la Pierre où votre nom s'inscrit / Déjà vous n'êtes plus qu'un mot d'or sur nos places / Déjà le souvenir de vos amours s'efface / Déjà vous n'êtes plus que pour avoir péri". Fez-se um silêncio, até que o 'Arruda', o meu apontador de morteiro 60, veio a terreiro e perguntou: "Meu alferes, e o que é que isso quer dizer?" Lá respondi: "Quer dizer que, se te armas em herói e morres, talvez tenhas uma placa com o teu nome lá num beco de Arruda dos Vinhos, mas acabas esquecido e vais ter, de certeza, certezinha, um par de cornos a título póstumo". Concentrado, o Arruda respondeu-me: "Fooda-se, já percebi". Percebeu ele e perceberam os restantes. Ainda bem.
E lá fomos a caminho do objectivo que ficava em cona-maim-delta, linguagem casernicola, quer dizer, longe, bem longe, a quinze quilómetros ou por aí. A pé, a desviar capim a braços ou à catanada, a atravessar bolanhas e matas. Vinte milícias à frente da coluna, gente da terra, a abrir caminho e a guiar-nos, mais dez milícias atrás, prevenção, não vá o diabo tecê-las e a coluna partir-se em duas.
O tempo custou a passar. E não foi tanto pela tensão causada pelos tiros e rebentamentos que se ouviam lá ao longe ou pela possibilidade, sempre presente, de vermos surgir um grupo de guerrilheiros em fuga. Foi mais pela sede. A 'ementa' da ração de combate, feita certamente por um sargento lateiro de Intendência e ratificada por um general de aviário com ar condicionado, é composta de conservas de peixe - sardinhas picantes e atum salgado - conservas de carne - feijoada, carne guisada, paté de carne de porco, tudo com pilhas de sal - e bebidas - latas de leite com chocolate holandês e sumol. Para sobremesa, frutas cristalizadas e bem cobertas de açúcar. Salvam-se as pastilhas de cafeína, pelo gosto saboroso e pelo efeito de espertina. Resultado prático: depois da primeira refeição, ninguém ficou com uma gota de água no cantil. Foram vinte horas a suar e sem uma gota de água para ingerir. Cheguei a lamber o suor dos braços. Uma insuportável tortura, um martírio.
No regresso, o 'Lixa', desesperado, atirou-se ao chão e exigiu, aos berros, histérico, um helicóptero cheio de cerveja. Ignorava, olimpicamente, as minhas ordens para que se levantasse. Queria um helicóptero cheio de cerveja, e pronto! Eu: "'Lixa', vamos lá que já só faltam cinco quilómetros". Nada. "'Lixa", quando chegarmos ao quartel, pago-te duas cervejas de litro". Nada. "'Lixa', hoje é dia de correio. Deves ter aerograma da tua namorada". Nada. "'Lixa', olha que  se o filho-da-puta do capitão sabe desta desobediência grave, vamos os dois parar ao Tribunal Militar e bater com os ossos na pildra. Tu por desobediência, eu por não te ter dado um tiro". Nada. Ou um helicóptero cheio de cerveja ou nada. Já no limite da paciência, pedi a um grupo de soldados que o rodeassem e disse-lhe: "Vou dar ordem a estes gajos todos para te mijarem em cima". Claro que nunca o faria, havia ainda a possibilidade última de improvisarmos uma maca com o painel vermelho que trazemos para assinalar a nossa posição à aviação, em caso de necessidade, e carregar com ele, mas o milagre que eu esperava deu-se - o 'Lixa' levantou-se de um salto e lá seguimos. E o 'Lixa' andando, andando e insistindo, insistindo: "Quero um helicóptero cheio de cerveja. Quero um helicóptero cheio de cerveja".  Mais à frente, uma mata de cajueiros surgiu-nos como um oásis: apanhámos os frutos todos e sugámos os pedúnculos esponjosos e cheios de água. Cheios de água e de um ácido que nos rebentou as bocas, mas que se lixe, a sede acalmou um pouco. Não sei quantas cervejas bebeu o 'Lixa', quando chegou ao quartel, duas de litro, pelo menos, foram, porque eu cumpri a palavra e paguei,  mas eu vinguei-me bem da sede: bebi uma garrafa de água de Vichy de um trago, o estômago rejeitou-a na íntegra. Reincidi e o estômago repetiu a reacção. Bebi uma terceira, aos tragos, civilizadamente, e essa foi bem recebida. A seguir, foi um litro de chá frio que sempre tenho no frigorífico da messe.
Aí tens o relatório da minha primeira operação 'à séria'. Dos outros, os das tropas especiais que estiveram no centro da 'patatolina', no meio dos tiros e rebentamentos, posso apenas dizer o que consta: safaram-se sem mortos, mas tiveram vários feridos. Haja Deus!

Beijos do herói (vivo! e cheio de sede... de ti).
P. 

AVISO IMPORTANTE


Ana Lourenço é, a partir de agora, e de segunda a sexta-feira, pelas 21H, o novo rosto da informação da RTP3

terça-feira, 5 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.

Empada, 6 de outubro de 1971

Q.,


É noite e chove. E quando chove, são mais calmas as noites de Empada. As águas que enchem as bolanhas e enlameiam as terras dificultam a caminhada das tropas IN e o transporte de armamento pesado. Protegem-nos. A tensão baixa um pouco e a vida corre quase normalmente, assim mais ou menos ao gosto do 'outro' , aquele a quem a heróica cadeira fez um épico e colossal manguito, o que nos meteu nisto, o falecido, o Salazar. 
O capitão, "meu triste herói de merda, mentiroso", homem sem qualidades ( tenho de ler o Musil...) que num ataque de Agosto por muito pouco se safou de levar com uma canhoada nos cornos, milagrosamente, diz ele, infelizmente, digo eu, por precaução refugia-se no quarto, ali bem pertinho do abrigo de cimento armado a que os oficiais têm direito. Os alferes e os furriéis entregam-se à nobre arte da carteação: bisca, sueca, montinho, lerpa, crapô, king, decilitrando cervejolas e whiskies. O primeiro-sargento do pelotão de morteiros, em adiantado estado de decomposição cerebral por muitas comissões em África, está emboscado, com um longo fueiro a que chama bazuca, junto da cozinha das messes, à espera dos cães que vêm ao cheiro da comida. Leva as noites nisto. Quando consegue ferrar uma bordoada num bicho, vem junto de nós anunciar, orgulhoso: "Mais um ferido nas tropas IN" e volta para a emboscada. O primeiro-sargento Semedo está na secretaria a fazer as contas do rancho, as difíceis continhas do rancho...,  os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Sete filhos lá no Minho, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O primeiro-sargento Remendão está no quarto a fazer as contas das cantinas, as difíceis continhas das cantinas..., os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Dois filhos lá em Elvas, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O Silveira, furriel vagomestre, na mesa do fundo, pouca luz, acerta as contas do rancho, as difíceis continhas do rancho, para baterem certo com as do 1º Semedo..., os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Noiva lá na Covilhã, nos preparos do enxoval, a entrada para o Toyota Corolla, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O primeiro-sargento Lopes, o mais recente na escala, responsável do armamento, ao balcão do bar, avia os habituais 'escoceses' e a partir do terceiro começa a dizer, alto e bom som: "O Semedo rouba no rancho, o Remendão rouba nas cantinas, e eu vou roubar o quê? Granadas?".
Os soldados e cabos também arranjam maneiras diversas de passar o tempo: cartas, copos, um ou outro a enrabar o cabo 'Lateiro', legionário profissional e panasca amador que, em regime de voluntariado, e em atitude até patriótica!, oferece a rectaguarda do seu próprio corpo para alívio das tropas expedicionárias; uns quantos (como o 'Peixe Frito', hetero radical mas que tolera e até ri com gosto da vida sexual do cabo 'Lateiro' por ser, segundo diz, uma boa oportunidade de o povo enrabar a Legião, ex-operário corticeiro numa fábrica de rolhas, no Seixal, que um dia mandou o chefe meter as rolhas no cu e enveredou pela carreira artística - faz de palhaço pobre num circo e o seu 'número' tem poucos dizeres, é mais de levar chapadas e atirar-se para o chão, assim fazendo rir as criancinhas) vagueiam  pela tabanca, à cata de bajudas para fazerem aquilo que 'até as mosquinhas gostam'. Miscigenação. Por isso é que há mulatos. E, muitas vezes, antes dos mulatos, há corrimentos, candidíases, gonorreias tratados a antibióticos. Às vezes não chega, é preciso hospital e bisturi. O 'Coruche' passou por isso e ficou muito impressionado quando viu o marsápio aberto em quatro partes 'Parecia uma banana descascada', diz ele. Os regulamentos militares mandam punir, mas são ignorados. Por caridade. O corpo é fraco, as necessidades muitas e as condições não são as ideais... E que de espanto, se já nos longínquos e idos tempos, ditos de maricachucha, se assinalava: "Que sucesso podemos logo esperar de nossas batalhas indo a elas carregados de pecados, e bominações, com soldados amancebados, blasfemos, homicidas, perdoados pouco antes de gravíssimos delitos, e com as almas vendidas ao demónio"?
E são assim as noites de Empada, as longas noites sem facas longas, quando a chuva cai e os nervos se acalmam. Menos entusiasmantes, pelo que se vê, do que as nossas tórridas noites nas boites de Liège ou Maastricht, mesmo menos picantes do que as nossas noites coloridas da 'Adágio' ou do 'Carroussel', aí na Lísbia. Mas, olha, é o que arranja, agora e aqui.
Despeço-me com um ardente beijo, como se estivéssemos a dançar na 'Adágio', no 'Carroussel', em Liège ou em Maastricht. E sussurro-te um terno

Boa noite,
P.

DE OUTROS


Todos os autores são mortais. Um autor pode ser extremamente útil e as suas ideias serem instrumentos poderosos, mas não é nem será o único, nem o desenvolvimento do pensamento acabou ali. Quando o marxismo entra ao nível das organizações políticas como uma bíblia, e em lugar de se ir à análise dos factos vai-se perguntar ao texto sagrado o que é que ele diz, há alguma coisa de errado.

António Borges Coelho
Expresso

segunda-feira, 4 de abril de 2016

OS PAPÉIS DO PANAMÁ

'Panama Papers' expõe bens de presidentes e personalidades em paraísos fiscais


Eh pá, a culpa é da TINA! Se "There is no alternative", o que se há de fazer?

SUGESTÃO