sábado, 9 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.




Bissau, 21 de Janeiro de 1973


Q.,


"O quartel entra imediatamente em prevenção rigorosa. Passe revista ao arame farpado". Foram as últimas palavras. Antes delas, secamente, veio a notícia da boca do comandante: "Mataram o Amílcar Cabral."
E foi assim que fiquei a saber, antes de todos os outros que não estiveram metidos na conspiração, da morte do Amílcar Cabral, em Conacri, República da Guiné.
Explico melhor e com mais detalhe: estava de oficial de dia no Comando da Defesa de Bissau e as horas passaram calmamente ao ritmo das rotinas habituais próprias deste tipo de funções - formaturas, inspecções de casernas e refeitório, provas do rancho, assistência às refeições, almoço e jantar das praças, assinaturas de autorizações de saída de viaturas e pessoal. As merdas do costume.
Às oito da noite, entrou-me no gabinete o ordenança do comandante com uma mensagem urgente para me apresentar imediatamente no comando. Lá fui.
E no comando estavam o comandante, o segundo-comandante, o chefe do Estado-Maior, o major de Informações. Cheirou-me a esturro. Apresentei-me com os salamaleques militares que se usam nestas ocasiões e esperei.
Não esperei muito antes que o comandante disparasse: "Então, nosso alferes, novidades?". Sem perceber muito bem o que se estava a passar, respondi: "Nada de especial. O dia correu normalmente: formaturas, inspecções, rancho. Nem o piquete teve de sair (como somos 'Defesa de Bissau', cada vez que se ouve um tiro, em Bissau ou arredores, lá vai o piquete saber o que se passou), a ronda não reportou nenhum problema com as patrulhas (há vinte e uma patrulhas nossas, diariamente, que percorrem as tabancas que cercam a cidade). E o comandante, ainda com rodeios: "E novidades militares?" "Não há", respondi.
Então, o comandante, decidido, entrou directamente no assunto. Deixo o diálogo curto:

Comandante - Há, há! Mataram o Amílcar Cabral.

Eu - Quem?

Comandante - As tropas.

Eu - Quais?

Comandante - Parece que as dele. O quartel entra imediatamente em prevenção rigorosa. Passe revista ao arame farpado.

Assim, foi assim, de forma aparentemente ingénua, simples, breve, sem burocracias, sem papel azul, que me foi comunicada a criminosa morte de um dos mais prestigiados dirigentes independentistas africanos.
Saí acabrunhado e fui para o gabinete do oficial de dia, onde peguei na lanterna e disse ao oficial de prevenção, um mentecapto do Barreiro que tem fama (e julgo que proveito) de bufo: "O quartel entrou em prevenção rigorosa. Vou passar revista ao arame farpado." E ele, em pergunta legítima: "Porquê?". E eu em resposta impaciente: "Mataram o Amílcar Cabral." E ele com curiosidade justificada: "Quem?" E eu, irritado e em voz alta: "Uns filhos-da-puta, uns filhos da puta!". E ele, um pouco assustado: "E sabe-se quem são?". Respondi-lhe já no limiar da porta e no limite da paciência: "A seu tempo se saberá.".

Passei revista ao arame farpado, voltei ao gabinete e disse ao bufo: "Podes ir dormir para o teu quarto porque eu não tenho sono e vou ficar por aqui."

Fiquei e aqui estou a contar-te mais um episódio deste crime continuado que é a guerra colonial.
Logo, lá para o fim da madrugada, antes de sair de serviço, ao preencher o formulário do relatório, no campo das 'Ocorrências', vou escrever: 'Nada a registar'.

Despeço-me com o beijo habitual e, hoje, acrescento:


A Bem da Nação,

P. 

O PANAMÁ AQUI TÃO PERTO


sexta-feira, 8 de abril de 2016

ISTO AGORA SÓ À CHAPADA

João Soares pede a demissão do cargo de ministro da Cultura

(Público)

Já estou a imaginá-lo disfarçado de mendigo romeno, ali nas escadinhas da igreja de Nossa Senhora dos Mártires, emboscado, a cocar as portas da Casa Havaneza, da Livraria Sá da Costa, da Brasileira, da Bénard, da Livraria Bertrand, à espera que de uma delas saia o Augusto M. Seabra, de cara a jeito, mesmo a pedir chapadas. Ou, cá em baixo, na rua do Coliseu, casa de tradição palhaceira, disfarçado de empregado de mesa das tascas ali da zona, ementa em punho, a tentar arpoar camones para o bitoque da casa ou o bacalhau à lagareiro, mas sempre de olho na porta do Gambrinus de onde o Vasquinho, a qualquer momento, pode sair, a andar direito ou às curvas, pouco importa. O que importa são as chapadas, as prometidas,  irremediáveis e saudáveis chapadas.
E o que eu daria para ver a cena, ai o que eu daria para ver a cena...

CARTAS PARA Q.

Niassa, Atlântico, 1 de Abril de 1971


Q.,


Há frases que, recorrentemente, a propósito de isto ou de aquilo ou, por vezes, sem propósito nenhum, me vêm à memória. Creio, de resto, que o mesmo acontece com muita gente. Quantas vezes citei: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo» e tive como resposta imediata da pessoa que me escutava: «Gabriel Garcia Márquez - Cem Anos de Solidão».

Hoje de manhã, ainda um pouco ensonado e saindo devagar de uma noite mal dormida, em luta acesa com um vómito que o balanço do navio permanentemente convoca, no meio deste mar violento que logo à saída do Tejo nos recebeu de mau humor, dei por mim a sussurrar para as paredes do camarote «Um dia de manhã, ao acordar dos seus sonhos inquietos, Gugor Samsa deu por si em cima da cama, transformado num insecto monstruoso» e, à falta de interlocutor, eu mesmo acrescentei: « Franz Kafka - A Metamorfose».


Não serei um insecto monstruoso, embora ache que o camuflado, com a bizarria das suas cores, poderia dar uma pele adequada a um bichinho dessa espécie. Talvez sejam  só os sonhos inquietos e as inglórias insónias que adivinho para os próximos dois anos, se os conseguir viver e ,vivendo, para os anos seguintes se as marcas ficarem fundas e a memória começar a sangrar (stress pós -traumático de guerra  se chama e nas Américas se estuda, importação do Vietname, manias de ricos, lá vamos nós dizendo na nossa orgulhosa e cantada pobreza franciscana que se contenta com um piedoso 'apanhado pelo clima'). Talvez sejam as tristezas acordadas e repetidas que já vivi, vivo e certamente continuarei a viver neste Portugal de Além e Aquém Mar, se ao Aquém conseguir regressar são e salvo, como se diz, e eu espero ver acontecer. Que a ausência de Deus venha em nosso auxílio (inspiração Holderliniana).  Pois que aconteça e eu esteja cá para ver, mas sem essa metamorfose monstruosa de que foi vítima o nosso amigo Gugor Samsa e pela qual têm passado, as mais das vezes sem darem por isso, tantos soldadinhos mansos e de chumbo moldável nascidos e criados tanto nas cidades grandes como nas berças, as mais das vezes em famílias respeitáveis e respeitadoras, gentes de princípios, de missas e comunhões, até, obedientes a Deus e a quem manda (Salazar! Salazar! Salazar!) e logo, quase por artes mágicas ou milagre da Nossa Senhora que nos apareceu para anunciar a conversão da Rússia, metamorfoseados em matadores exímios e coleccionadores de dedos e orelhas de pretos conservados em frascos de álcool.  E viva a ditosa pátria que tais filhos tem. Viva!

CLEPTOCRACIAS

Angola pede ajuda ao FMI perante queda dos preços do petróleo

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O BOCHECHINHAS, TÃO QUERIDO, MAS TÃO BIRRENTO

O ministro da Cultura, João Soares, ameaçou na manhã desta quinta-feira dar “bofetadas” aos colunistas Augusto M. Seabra e Vasco Pulido Valente na sequência de um artigo de opinião de Seabra que critica os seus primeiros quatro meses de governação.
Através da sua conta na rede social Facebook, o ministro recorda: “Em 1999 prometi-lhe publicamente um par de bofetadas. Foi uma promessa que ainda não pude cumprir, não me cruzei com a personagem, Augusto M. Seabra, ao longo de todos estes anos. Mas continuo a esperar ter essa sorte. Lá chegará o dia”. Mais à frente no seu post, João Soares diz: “Estou a ver que tenho de o procurar, a ele e já agora ao Vasco Pulido Valente, para as salutares bofetadas. Só lhes podem fazer bem. A mim também”. 'Público'
O que me ocorre dizer é simples: quando é que alguém tem a coragem de dizer ao Joãozinho que, politicamente, ele é, sempre foi, um cabide que transporta dois nomes (Barroso e Soares) e que, eticamente, morreu quando fez a apresentação da 'biografia' de Domingos Névoa?
Nota: Joãozinho, meu menino birrento, se o seu assessor de imprensa lhe levar cópia deste 'post', corro o risco de ir para a bicha dos condenados às bofetadas. Se tal acontecer, queira deixar na caixa de comentários o dia e a hora em que devo apresentar-me à porta do palácio da Ajuda, para execução da sentença. Em todo o caso previno-o: sou pouco dado ao gesto católico de levar e pedir mais e as suas bochechas são uma tentação...

CARTAS PARA Q.

Bissau, 6 de Abril de 1971 

Q.,

Enfim, em terra. Bissau, porto de Pidgiguiti, onde tudo começou, em Agosto de 1959. Umas reivindicações banais dos estivadores - mais dinheiro para a comida, menos porrada, tudo 'se faz favor'. Um atrevimento intolerável no douto parecer das autoridades coloniais, pouco habituadas a pedidos insólitos ou insubmissões dos indígenas. E vá de porrada com bastões e vá de tiros com as velhas 'Mauser', que estas coisas sabe-se como começam mas não se sabe como acabam. Esta pretendia ser uma lição exemplar e acabou mal. Foi brutal o castigo e no fim apurou-se: mortos pelos cinquenta, feridos pela centena, deportados para S. Tomé, terra de 'acolhimento' de escravos de várias colónias, foram às molhadas. Foi o rastilho, a explosão deu-se uns tempos depois. E, agora, é o que sabemos. Mais: é o que sabemos e o que nos é sonegado. É uma realidade escondida que nos aparece só com o rabo de fora, nos comunicados tímidos, incompletos, espaçados que as Forças Armadas vão largando, a conta-gotas, para os jornais. Os nomes de dois ou três mortos ao serviço da Pátria, doses reduzidas porque é preciso evitar que o desânimo se instale ou, o que também pode acontecer, que a revolta branca também estale. Aí e aqui.


Fomos autorizados a sair do barco. Aproveitei para dar uma espreitadela à cidade, num táxi azul, a cair de podre, e ir aos correios deixar a carta que te escrevi a bordo do 'Niassa'. Tentei telefonar mas foi impossível, as chamadas para Lisboa demoram uma eternidade e não se via o fim da bicha dos que lá estavam pelas mesmas razões. A cidade é pequena, desinteressante, pobre, muito pobre, cheia de tabancas miseráveis, uma delas, por onde passei por sugestão do taxista, conhecida por 'Pilão', uma espécie de 'Intendente' do Terceiro-Mundo, uma imundície pegada, é frequentada por cabos e soldados que lá vão para 'espalhar a Fé', aliviar os tomates, arriscar uma galiqueira. Misérias que o Império tece.

Sem misérias, rica, consta mesmo que muito rica, apenas a ’Casa Gouveia’, do imperial e omnipresente grupo CUF, que monopoliza o comércio interno e externo da ’província’ e obriga os indígenas à cultura do amendoim (mancarra, por aqui chamado), um pouco como os indígenas de aí que obrigados são à cultura do trigo. Um único monumento, a velha fortaleza da Amura onde se refugia e vai planeando batalhas e defesas, avanços e recuos, o estado-maior da tropa. Ruas cheias de gente, paisanos pretos e andrajosos, bajudas de corpos esbeltos embrulhados em longos panos garridos que lhes moldam os corpos e fazem sobressair as bundas redondas (sem pensamentos libidinosos, juro, é o que se aproveita de toda esta paisagem humana), miúdos a correr e a pedir um peso aos passeantes brancos, militares brancos, na maioria da guarnição de Bissau, outros em trânsito de ou para quartéis que ficam lá para o mato, remotos, em teatro de operações, para utilizar a 'sofisticada' linguagem quarteleira.
Pessoas que se cruzam comigo lançam-me de soslaio um olhar triste, submisso, e seguem em passo lento, dengoso, sem vitalidade nem esperança. Vão desbussoladas, rendidas, vencidas - sente-se. Muitas, passam o tempo a tentar arpoar esmolas, tantas, que a cidade parece uma imensa esmolaria. A minha farda, de verde ainda não amarelecido pelo sol africano, com galões de alferes ainda brilhantes, a cheirar a Lisboa e a dinheiro fresco, faz de chamariz. Não me largam. Um, ‘Alfero, dá cinco pesos’ e logo outro 'Alfero, dá cinco pesos' e, depois outro e outro ainda, uma ladaínha.
Cafés e esplanadas cheias de soldados que bebem cerveja e comem sem requinte ostras pelo preço dos metropolitanos amendoins, despejando as cascas em baldes colocados ao lado das mesas. E falam alto, muito alto de batalhas reais e imaginadas, todas com muitos explosivos: tiros de espingardas, metralhadoras, canhões sem recuo, morteiros. Muitos mortos (turras, dizem eles), muitos heroísmos ( dos brancos, é bom de ver). Realidade e ficção misturadas em desabafos necessários, esconjuro de medos e fantasmas. Aproveitam também para engraxar as botas e esticam-se nas cadeiras, imitam a pose dos ricos lá da aldeia quando, no café, recorrem aos serviços do 'graxa'. Têm, finalmente, a seus pés uns humildes (humilhados?) servidores que espalham a pomada com as mãos e, depois, em passes viris de pano sujo que estraleja no ar e só depois poisa nas botas para a acção última do luzimento: engraxadores africanos que, de caixas às costas, enxameiam a cidade e oferecem os seus serviços ao preço da uva mijona. Cerveja, ostras, bota luzidia - vida de luxo ou a ela parecida, pelo menos por uma vez. Com papas e bolos se enganam os tolos, ditado esquecido e que neste momento me ocorre.

O calor e a humidade sufocam-me. Tento afogá-los em Coca-colas, aqui de venda livre, sem o metropolitano proibicionismo parolo e salazarento, muitas e frescas, primeiro, mas depois de começar a sentir um nervoso miudinho, efeito do excesso de cafeína, mudo para as Fantas, umas laranjadas espanholas que, em condições normais, me serviriam para lavar penicos. Também muitas e frescas. O suor vai-se expandindo pelos texteis: já me encharca a camisa e as cuecas. Logo que o sol começou a baixar, as melgas, em nuvens, iniciam trabalhos: picam em todos os centímetros de pele desprotegida e, mesmo, por cima da camisa e das calças. Tive de me refugiar num restaurante com ar condicionado, o ’Pelicano’, junto do porto, onde jantei.

No fim do jantar, o chefe de mesa aproximou-se e logo declinou nome e funções que desempenhava: "Mário, chefe de mesa" e depois de breves perguntas protocolares «estava bom o jantar?» «deseja mais alguma coisa?», logo, e com toda a naturalidade, entrou em improváveis confidências: passado de militante do PAIGC, preso na esquadra de Bissau, ilha das Galinhas, Tarrafal, tudo somado onze anos de prisão. Ouvi interessado mas em silêncio, por prudência. Confissões destas não se fazem com tanta facilidade e logo ao primeiro contacto. E o meu estatuto de 'P.S.' (politicamente suspeito) que a Repartição de Informações, a famigerada 'Segunda', manda carimbar a vermelho no dossier que me dedica, por indicação da benemérita PIDE a que está ligada por fortes e fraternais laços, recomenda recato em situações pouco claras.

Amanhã seremos baldeados do ’Niassa’ directamente para uma lancha de desembarque da Marinha e para um batelão que irá a reboque. Um batelão! nem na Somália se transportam tropas num batelão. Só num 'império' pindérico, com um hortelão a fazer de imperador, e com Santa Comba Dão como capital é que as tropas expedicionárias se deslocam de batelão. Ninguém esperaria iates, mas um batelão??? Rumaremos a Bolama, onde vamos ficar durante um mês para instrução de aperfeiçoamento operacional, treino final para uma guerra a sério cada vez mais próxima.


Foge-me, pouco a pouco, a curta vida,
Se por acaso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo.
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Beijos (muitos) do

P.

ANÚNCIO GRÁTIS


quarta-feira, 6 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.



Empada, 15 de outubro de 1971


Q.,


Participei, ontem, numa operação a sério. No briefing feito na véspera, com a presença de tubarões dos comandos, pára-quedistas e fuzileiros, tropas especiais que foram para o centro do furacão por só elas fazerem operações ofensivas em zona de intervenção do comando-chefe (eufemismo usado para definir zonas libertadas e dominadas pelo PAIGC, como esta onde me encontro), fomos encarregados, como tropa de quadrícula, infantaria sem pedigree, soldadagem do peido-e-coice, de uma emboscada em carreiro que poderia servir de itinerário de fuga para os guerrilheiros atacados. Vinte e quatro horas!
Logo que saímos do arame farpado, mandei parar as tropas, disse ao que íamos, recomendei todo o cuidado e acabei recitando Aragon: "Déjà la Pierre où votre nom s'inscrit / Déjà vous n'êtes plus qu'un mot d'or sur nos places / Déjà le souvenir de vos amours s'efface / Déjà vous n'êtes plus que pour avoir péri". Fez-se um silêncio, até que o 'Arruda', o meu apontador de morteiro 60, veio a terreiro e perguntou: "Meu alferes, e o que é que isso quer dizer?" Lá respondi: "Quer dizer que, se te armas em herói e morres, talvez tenhas uma placa com o teu nome lá num beco de Arruda dos Vinhos, mas acabas esquecido e vais ter, de certeza, certezinha, um par de cornos a título póstumo". Concentrado, o Arruda respondeu-me: "Fooda-se, já percebi". Percebeu ele e perceberam os restantes. Ainda bem.
E lá fomos a caminho do objectivo que ficava em cona-maim-delta, linguagem casernicola, quer dizer, longe, bem longe, a quinze quilómetros ou por aí. A pé, a desviar capim a braços ou à catanada, a atravessar bolanhas e matas. Vinte milícias à frente da coluna, gente da terra, a abrir caminho e a guiar-nos, mais dez milícias atrás, prevenção, não vá o diabo tecê-las e a coluna partir-se em duas.
O tempo custou a passar. E não foi tanto pela tensão causada pelos tiros e rebentamentos que se ouviam lá ao longe ou pela possibilidade, sempre presente, de vermos surgir um grupo de guerrilheiros em fuga. Foi mais pela sede. A 'ementa' da ração de combate, feita certamente por um sargento lateiro de Intendência e ratificada por um general de aviário com ar condicionado, é composta de conservas de peixe - sardinhas picantes e atum salgado - conservas de carne - feijoada, carne guisada, paté de carne de porco, tudo com pilhas de sal - e bebidas - latas de leite com chocolate holandês e sumol. Para sobremesa, frutas cristalizadas e bem cobertas de açúcar. Salvam-se as pastilhas de cafeína, pelo gosto saboroso e pelo efeito de espertina. Resultado prático: depois da primeira refeição, ninguém ficou com uma gota de água no cantil. Foram vinte horas a suar e sem uma gota de água para ingerir. Cheguei a lamber o suor dos braços. Uma insuportável tortura, um martírio.
No regresso, o 'Lixa', desesperado, atirou-se ao chão e exigiu, aos berros, histérico, um helicóptero cheio de cerveja. Ignorava, olimpicamente, as minhas ordens para que se levantasse. Queria um helicóptero cheio de cerveja, e pronto! Eu: "'Lixa', vamos lá que já só faltam cinco quilómetros". Nada. "'Lixa", quando chegarmos ao quartel, pago-te duas cervejas de litro". Nada. "'Lixa', hoje é dia de correio. Deves ter aerograma da tua namorada". Nada. "'Lixa', olha que  se o filho-da-puta do capitão sabe desta desobediência grave, vamos os dois parar ao Tribunal Militar e bater com os ossos na pildra. Tu por desobediência, eu por não te ter dado um tiro". Nada. Ou um helicóptero cheio de cerveja ou nada. Já no limite da paciência, pedi a um grupo de soldados que o rodeassem e disse-lhe: "Vou dar ordem a estes gajos todos para te mijarem em cima". Claro que nunca o faria, havia ainda a possibilidade última de improvisarmos uma maca com o painel vermelho que trazemos para assinalar a nossa posição à aviação, em caso de necessidade, e carregar com ele, mas o milagre que eu esperava deu-se - o 'Lixa' levantou-se de um salto e lá seguimos. E o 'Lixa' andando, andando e insistindo, insistindo: "Quero um helicóptero cheio de cerveja. Quero um helicóptero cheio de cerveja".  Mais à frente, uma mata de cajueiros surgiu-nos como um oásis: apanhámos os frutos todos e sugámos os pedúnculos esponjosos e cheios de água. Cheios de água e de um ácido que nos rebentou as bocas, mas que se lixe, a sede acalmou um pouco. Não sei quantas cervejas bebeu o 'Lixa', quando chegou ao quartel, duas de litro, pelo menos, foram, porque eu cumpri a palavra e paguei,  mas eu vinguei-me bem da sede: bebi uma garrafa de água de Vichy de um trago, o estômago rejeitou-a na íntegra. Reincidi e o estômago repetiu a reacção. Bebi uma terceira, aos tragos, civilizadamente, e essa foi bem recebida. A seguir, foi um litro de chá frio que sempre tenho no frigorífico da messe.
Aí tens o relatório da minha primeira operação 'à séria'. Dos outros, os das tropas especiais que estiveram no centro da 'patatolina', no meio dos tiros e rebentamentos, posso apenas dizer o que consta: safaram-se sem mortos, mas tiveram vários feridos. Haja Deus!

Beijos do herói (vivo! e cheio de sede... de ti).
P. 

AVISO IMPORTANTE


Ana Lourenço é, a partir de agora, e de segunda a sexta-feira, pelas 21H, o novo rosto da informação da RTP3

terça-feira, 5 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.

Empada, 6 de outubro de 1971

Q.,


É noite e chove. E quando chove, são mais calmas as noites de Empada. As águas que enchem as bolanhas e enlameiam as terras dificultam a caminhada das tropas IN e o transporte de armamento pesado. Protegem-nos. A tensão baixa um pouco e a vida corre quase normalmente, assim mais ou menos ao gosto do 'outro' , aquele a quem a heróica cadeira fez um épico e colossal manguito, o que nos meteu nisto, o falecido, o Salazar. 
O capitão, "meu triste herói de merda, mentiroso", homem sem qualidades ( tenho de ler o Musil...) que num ataque de Agosto por muito pouco se safou de levar com uma canhoada nos cornos, milagrosamente, diz ele, infelizmente, digo eu, por precaução refugia-se no quarto, ali bem pertinho do abrigo de cimento armado a que os oficiais têm direito. Os alferes e os furriéis entregam-se à nobre arte da carteação: bisca, sueca, montinho, lerpa, crapô, king, decilitrando cervejolas e whiskies. O primeiro-sargento do pelotão de morteiros, em adiantado estado de decomposição cerebral por muitas comissões em África, está emboscado, com um longo fueiro a que chama bazuca, junto da cozinha das messes, à espera dos cães que vêm ao cheiro da comida. Leva as noites nisto. Quando consegue ferrar uma bordoada num bicho, vem junto de nós anunciar, orgulhoso: "Mais um ferido nas tropas IN" e volta para a emboscada. O primeiro-sargento Semedo está na secretaria a fazer as contas do rancho, as difíceis continhas do rancho...,  os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Sete filhos lá no Minho, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O primeiro-sargento Remendão está no quarto a fazer as contas das cantinas, as difíceis continhas das cantinas..., os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Dois filhos lá em Elvas, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O Silveira, furriel vagomestre, na mesa do fundo, pouca luz, acerta as contas do rancho, as difíceis continhas do rancho, para baterem certo com as do 1º Semedo..., os débitos, os créditos, uns trocos para a carteira. Noiva lá na Covilhã, nos preparos do enxoval, a entrada para o Toyota Corolla, muitas despesas, o pré não dá para tudo... O primeiro-sargento Lopes, o mais recente na escala, responsável do armamento, ao balcão do bar, avia os habituais 'escoceses' e a partir do terceiro começa a dizer, alto e bom som: "O Semedo rouba no rancho, o Remendão rouba nas cantinas, e eu vou roubar o quê? Granadas?".
Os soldados e cabos também arranjam maneiras diversas de passar o tempo: cartas, copos, um ou outro a enrabar o cabo 'Lateiro', legionário profissional e panasca amador que, em regime de voluntariado, e em atitude até patriótica!, oferece a rectaguarda do seu próprio corpo para alívio das tropas expedicionárias; uns quantos (como o 'Peixe Frito', hetero radical mas que tolera e até ri com gosto da vida sexual do cabo 'Lateiro' por ser, segundo diz, uma boa oportunidade de o povo enrabar a Legião, ex-operário corticeiro numa fábrica de rolhas, no Seixal, que um dia mandou o chefe meter as rolhas no cu e enveredou pela carreira artística - faz de palhaço pobre num circo e o seu 'número' tem poucos dizeres, é mais de levar chapadas e atirar-se para o chão, assim fazendo rir as criancinhas) vagueiam  pela tabanca, à cata de bajudas para fazerem aquilo que 'até as mosquinhas gostam'. Miscigenação. Por isso é que há mulatos. E, muitas vezes, antes dos mulatos, há corrimentos, candidíases, gonorreias tratados a antibióticos. Às vezes não chega, é preciso hospital e bisturi. O 'Coruche' passou por isso e ficou muito impressionado quando viu o marsápio aberto em quatro partes 'Parecia uma banana descascada', diz ele. Os regulamentos militares mandam punir, mas são ignorados. Por caridade. O corpo é fraco, as necessidades muitas e as condições não são as ideais... E que de espanto, se já nos longínquos e idos tempos, ditos de maricachucha, se assinalava: "Que sucesso podemos logo esperar de nossas batalhas indo a elas carregados de pecados, e bominações, com soldados amancebados, blasfemos, homicidas, perdoados pouco antes de gravíssimos delitos, e com as almas vendidas ao demónio"?
E são assim as noites de Empada, as longas noites sem facas longas, quando a chuva cai e os nervos se acalmam. Menos entusiasmantes, pelo que se vê, do que as nossas tórridas noites nas boites de Liège ou Maastricht, mesmo menos picantes do que as nossas noites coloridas da 'Adágio' ou do 'Carroussel', aí na Lísbia. Mas, olha, é o que arranja, agora e aqui.
Despeço-me com um ardente beijo, como se estivéssemos a dançar na 'Adágio', no 'Carroussel', em Liège ou em Maastricht. E sussurro-te um terno

Boa noite,
P.

DE OUTROS


Todos os autores são mortais. Um autor pode ser extremamente útil e as suas ideias serem instrumentos poderosos, mas não é nem será o único, nem o desenvolvimento do pensamento acabou ali. Quando o marxismo entra ao nível das organizações políticas como uma bíblia, e em lugar de se ir à análise dos factos vai-se perguntar ao texto sagrado o que é que ele diz, há alguma coisa de errado.

António Borges Coelho
Expresso

segunda-feira, 4 de abril de 2016

OS PAPÉIS DO PANAMÁ

'Panama Papers' expõe bens de presidentes e personalidades em paraísos fiscais


Eh pá, a culpa é da TINA! Se "There is no alternative", o que se há de fazer?

SUGESTÃO


domingo, 3 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.

Bissau, 15 de março de 1973

Q.,

Aproxima-se o dia do embarque para o regresso. A ansiedade cresce. Até aqui, contei os dias. Agora, conto os dias e as horas. Talvez para a semana até os minutos conte. Uma tortura que se aproxima do fim.
Recebi hoje a "História da C. Caç. 3373 - 'Os Catedráticos', Guiné 1971-1973". Para os oficiais, um grosso volume com todos os pormenores, com uma capa sugestiva do 'Lisboa', um soldado com talento que não irá longe: durante dois anos, o álcool serviu-lhe de porto de abrigo e de fuga. Agora, no estado a que chegou, ou faz uma cura de desintoxicação ou a cirrose acaba com ele em pouco tempo. Para os soldados, meia dúzia de folhas com o "Resumo dos Factos e Feitos Mais Importantes". Ambos os documentos, que já pertencem aos arquivos do sempre glorioso Exército português, têm o carimbo vermelho "Reservado".
Cago-me no "reservado" como os anarquistas espanhóis "se cagan en Diós" e resumo o "Resumo" sem rectificar inexactidões ou mentiras grosseiras como a que atribui a morte de dois soldados a 'acidente com arma de fogo'. Mantenho a linguagem burocrática, quase cifrada e quarteleira. Assim, até parece que foi simples:

04JUN71 - As NT, em missão de patrulhamento, detectaram e levantaram 03 minas A/P IN, em (EMP 1 E6 35).

05JUN71 - 1ª flagelação IN, com RPG e armas ligeiras, direcção Sul, sem consequências.

10JUN71 - 2ª flagelação IN, com CAN S/R 82, RPG e armas ligeiras, direcção sudeste, causando 02 mortos à população civil.

11JUN71 - 3ª flagelação IN, com CAN S/R 82, RPG e armas ligeiras, direcção Este, sem consequências.

27JUN71 - 4ª flagelação IN, com CAN S/R 82, RPG e armas ligeiras, direcção Sudeste, sem consequências.

02JUL71 - 5ª flagelação IN, com RPG e armas ligeiras, direcção Sudoeste, sem consequências.

21JUL71 - 6ª flagelação IN, com RPG e armas ligeiras, direcção Sudoeste, sem consequências.

05AGO71 - 7ª flagelação IN, às 02H00, com CAN S/R 82, direcção Sudoeste, sem consequências. 
Com o intervalo de 01 hora, nova flagelação (8ª), com CAN S/R 82, RPG e armas ligeiras, mesma direcção, sem consequências.

07AGO71 - 9ª flagelação IN, com CAN S/R 82, direcção Este, sem consequências.

14SET71 - 10ª flagelação IN, com RPG, direcção Sudeste, sem consequências.

10NOV71 - 11ª flagelação IN, com Mort. 82, RPG e armas ligeiras, direcção Sudeste, sem consequências.

04DEZ71 - 12ª flagelação IN, com CAN S/R 82, direcção Leste, causando feridos ligeiros à população.

11DEZ71 - 13ª flagelação IN, com RPG e armas ligeiras, direcção Sul, sem consequências.

O4JAN72 - 14ª flagelação IN, pelas 22H20, com CAN S/R, direcção Leste, provocando feridos ligeiroa à população e milícia.
- 15º flagelação IN, pelas 23H40, com RPG e armas ligeiras, direcção Noroeste, sem consequências

02FEV72 - Pelas 19H15, contacto com o IN, em (EMP 1 A5 52), deixando no local 01 morto, 02 feridos, capturados, assim como diverso armamento e munições. As NT tiveram 01 ferido sem gravidade.
- 16ª flagelação IN, pelas 22H15, com FOG 122, CAN S/R 82 e CAN S/R 75, direcções Este e Sudeste, causando 01 morto à população.

09FEV72 - 17ª flagelação IN, pelas 19H15, com CAN S/R 75, direcção Sudeste, sem consequências.

07MAR72 - 18ª flagelação IN, pelas 20H20, com CAN S/R 75, direcção Sudoeste, sem consequências.

05ABR72 - 19ª flagelação IN, pelas 21H45, com CAN S/R 75, direcção Sudeste, sem consequências.

01MAI72 - As NT, em missão de patrulhamento, accionaram mina IN, em (EMP 1 F3 61), tendo sido ferido um militar da C. Caç. 3566.

15JUN72 - Por acidente com arma de fogo, quando se encontravam de serviço no HMBIS, faleceram 02 militares desta C. Caç.

Q.,

E foi assim, ou quase assim, que as coisas se passaram. E como são coisas passadas (alguma vez nos passarão da memória?) dei-te alguns pormenores 'oficiais' e deixo-te um glossário: Minas A/P - Minas antipessoal; CAN S/R - Canhão sem recuo; RPG - Lança rockets; Mort. - Morteiro; FOG 122 - Foguetões/mísseis terra-terra; 'Faleceram 02 militares por acidente com arma de fogo' - Mortos 2 soldados por um outro soldado português internado em Psiquiatria, no Hospital Militar de Bissau.

A carta vai longa, pesada, muito pesada e explosiva - mil quilos de trotil e duas urnas com corpos e chumbo.Termino.

Beijos,
P.

MISÉRIAS



Quando se fala do regime absurdo da Coreia do Norte, o PCP taramela. Que miséria política...
Quando se fala do regime cleptocrático e repressivo de Angola, o PCP fala com clareza: apoia. Que miséria moral...

SUGESTÃO



Lobistas ao serviço de uma empresa ou de um sector industrial, presidentes executivos de empresas transnacionais, instâncias quase estatais dotadas de redes tentaculares que se estendem muito para lá das fronteiras nacionais: uma multidão de indivíduos cujo único objectivo é a acumulação de lucros, está a tomar o poder e a orientar em seu benefício as grandes decisões políticas.Estes usurpadores ingerem-se nos grandes temas mundiais à força de financiamentos e de trocas de favores, infiltram-se nas Nações Unidas e trabalham para construir um mundo à sua imagem.Susan George descobriu e revelou o plano de acção que as empresas transnacionais estão a utilizar para conquistar o nosso sistema político.Neste livro fundamental, a autora levanta o véu dos inúmeros mecanismos através dos quais as grandes empresas compram políticos e manipulam a política global.

sábado, 2 de abril de 2016

CARTAS PARA Q.

Empada 26 de Dezembro de 1971

Q.,

Depois do almoço, ia a sair do quarto quando um brasileiro chamado Nelson Ned, escondido dentro do transístor, me perguntou aos berros: "O que é que você vai fazer, domingo à tarde?" A pergunta pareceu-me estúpida e até provocatória. Era óbvio que, no sul da Guiné, de camuflado, G3 ao ombro, carregadores à volta do cinturão e nos bolsos das calças, junto às canelas, duas granadas defensivas nos bolsos da camisa, ração de combate à cintura, não iria, certamente, para uma matinée dançante. "O que é que você vai fazer, domingo à tarde?" Só poderia ir para um patrulhamento e emboscada que até iam prolongar-se até à meia-noite. Optei por não entrar em diálogo e nem o deixei dizer o resto. Com um pontapé acabei com a conversa e com o rádio. Fiz mal e logo me arrependi: pontapear um anão, como é o Nelson Ned, está longe de ser um acto heróico e, ainda por cima, terei de mandar vir de Bissau um novo transistor.
Serenei e lá saí por esses campos fora, como lá na minha terra a cantar  se diz, por trilhos e pântanos, por pântanos e trilhos. Olho vivo, orelhas como radares, a patrulhar, sempre a patrulhar. E agora aqui estou, no meio do capim, sentado como um Buda magro, aqui estou emboscado até à hora do regresso ao quartel, se até lá não acontecer um imprevisto desagradável, claro. Aproveito o tempo e a luz do dia para escrever (escrever-te) e ler um pouco. Para estas 'operações' e como modo de acelerar a passagem das horas, trago sempre comigo, por companhia, transportados nos bolsos inferiores das calças, junto aos carregadores, dois grandes livros de formato pequeno (existe um terceiro, "Poesias e Cartas", do José Bação Leal que hoje deixei no quartel). Sobrecapeei-os com plásticos e em mais plásticos os embrulhei, assim ficam protegidos das águas puras da chuva que possa cair e das águas e lamas podres das bolanhas que sempre atravessamos. São "Pátria Lugar de Exílio", do Daniel Filipe e "Autobiografia e Poemas", do Maiakowski. Dobrada, no meio do livro do Maiakowski, vem uma carta/relíquia que o Zé Manel - meu amigo que não conheceste, companheiro de longos serões alentejanos com castanhas assadas, vinhos novos da talha, por vezes ainda com grainhas das uvas, e conversas sobre os malteses do Manuel da Fonseca, os mineiros do Manuel do Nascimento, os vagabundos do Antunes da Silva, patrícios autores que lhe frequentaram a casa paterna. E também vinham à colação o Carlos de Oliveira, o Pessoa, o Jorge Amado, o Vargas Llosa, tantos outros -  me escreveu, nos idos de 1969,  andava ele por aqui, itinerante, vagadundeando entre Fá, Nova Lamego, Xitole, Enxalé, Béli, Madina do Boé, numa companhia de intervenção, carne para canhão, sempre convocada para as situações mais perigosas, tentando fugir aos tiros, às minas, às armadilhas, aos morteiros, aos canhões e andava eu a roçar o cu nos cafés de Campo de Ourique, a discutir a teoria e a praxis, a relembrar o maio do ano anterior, a ver em todas as casas burguesas os nossos palácios de inverno. Fancarias, masturbações. 
Três mortos por companhia: o Daniel Filipe que terá morrido de morte natural; o Maiakowski que escolheu o suicídio quando viu os primeiros sinais de desvirtuamento de uma revolução que sonhara, fizera e cantara; o Zé Manel que, pouco tempo depois de me ter escrito esta carta, foi 'suicidado' (como também aconteceu ao José Bação Leal, em Moçambique) pelos de aí, os dos ministérios, com as balas de os de aqui, os guerrilheiros independentistas. Foi 'suicidado' no meio de um confronto aceso, junto à margem do rio Corubal. Episódio banal, por tão frequente, nesta terra que se está a tornar o Vietnam dos pequenitos. Assim qualquer coisa parecida com o que, na carta, me foi relatado e que releio e transcrevo: "Aqui em Nova Lamego temos feito escoltas às colunas de reabastecimento que vão para Madina do Boé e para Béli, quartéis que na época das chuvas que agora se avizinha ficam isolados do mundo exterior. São colunas que demoram cinco e seis dias. A última demorou sete. São cento e setenta quilómetros a andar através do mato, escoltando as viaturas, passando dias literalmente sem comer, sem dormir, numa zona recheada de perigos que já nos infligiu um morto e para cima de vinte feridos, alguns deles com muita gravidade, excluindo os mortos do batalhão e soldados africanos que iam connosco. É horrível, pá. Num mês, três escoltas deste género. Temos cinquenta e seis homens operacionais que se encontram arrasados e estropiados, como eu. Há pelotões que estão reduzidos a cinco e a sete homens. Exceptuando oito feridos que tivemos numa emboscada, na qual morreram dois soldados nativos, o resto dos sinistrados foi com minas anticarro e antipessoal. Minas comandadas que nunca rebentaram na primeira viatura. A última viatura a explodir, aí a quinhentos metros de Béli, ia atrás daquela em que eu seguia. A minha passou, a outra já não passou. Só ouvi uma tremenda explosão, vi fumo negro, vi pedaços de lata, de pneus e corpos pelo ar. Depois, vai-se socorrer os feridos e rebentam mais armadilhas antipessoal lá colocadas para o efeito. Nunca esperei ver tanta desgraça, tanto corpo mutilado, tanto corpo esventrado. Um tipo chega a um momento em que não sabe onde há de pôr os pés, pois os trilhos na mata também estão armadilhados. O morto que temos, um alferes, foi numa mina antipessoal. Um cabo que o foi socorrer tropeçou noutra e ficou sem uma perna. No caminho para cá sofremos outra emboscada com mina accionada pelo explosor. A emboscada estava montada com tal técnica que estávamos cercados. A nossa sorte foi os gajos fazerem fogo a medo, pois nós tínhamos um
bombardeiro por cima. Na emboscada propriamente dita não sofremos baixa nenhuma. Ficaram gravemente feridos oito soldados africanos que iam à frente a picar a estrada no momento em que as armadilhas explodiram, dando sinal da abertura da emboscada. Um tipo chega a Madina do Boé e deita a correr para os abrigos, pois assim que a aviação sai de cima de nós começam logo a cair as rocketadas e as morteiradas do 'oitenta e dois'. À noite há a sessão de canhoada. Na última noite que lá dormimos, caíram dentro do quartel trinta e três granadas de canhão sem recuo. Pelo caminho só se vêem viaturas queimadas, daimlers destruídas, enfim um percurso medonho.
Isto dá cabo de um gajo. Já estive catorze vezes debaixo de fogo e cada vez tenho mais medo, porque cada vez um tipo tem mais consciência do perigo. Nas primeiras vezes ainda é como o outro: um tipo não conhece a coisa, anda à vontade no mato, só quando ouve tiros é que se apercebe do perigo. Agora um tipo já fareja o perigo, já conhece sítios medonhos, propícios à emboscada, quando atravessa clareiras tem a noção do risco que corre. Quando há combate já tem mais autodomínio, mais clareza de raciocínio, já não se põe aos tiros à doida, mas o medo é cada vez maior. Venham-me cá com essa opinião que certos indivíduos generalizaram: 'Depois dum certo tempo, dia em que a gente sai e não ouve tiros, já não é dia'. E estes gajos aqui, cabrões, só atacam à base de armas pesadas: metralhadoras, bazucas, lança-rockets e morteiros".
Foi a última carta que recebi do Zé Manel. "Isto dá cabo de um gajo", dizia ele. E deu: poucos meses depois, morreu numa emboscada. Com vinte e poucos anos, uma idade obscena para se morrer. Soube-se que foi para os lados do rio Corubal, mas nunca se soube se foi mina, armadilha, bala ou granada. Quando o corpo chegou à 'Metrópole' ia em urna selada, ninguém o viu. As 'autoridades' quiseram sepultá-lo no talhão dos combatentes. A família não autorizou. Está em campa rasa com nome, datas de nascimento e morte. Sem epitáfio.
Bom, a noite está a cair e as melgas, aos milhões, já estão a atacar. Termino. Vou estender-me no capim e proteger-me com o poncho. Pensarei em ti e recordarei as nossas horas felizes de tempos recentes. Sonho: "Estás ainda presente na curva do colchão. / No travesseiro desalinhado. Naquele gesto / de deixar a cortina cair sobre o teu pudor adolescente."

Beijo-te,
P.

A TERNURA DOS QUARENTA

sexta-feira, 1 de abril de 2016

DIVULGAÇÃO

Propriedade da editora Nota de Rodapé e dirigida por Maria João Cantinho, a nova revista literária intitulada Café com Letras, com periodicidade mensal a partir de 1 de Abril, pretende ter um alcance lusófono.
Com cerca de 100 páginas e tiragem de 20.000 exemplares, a revista Café com Letras será distribuída não apenas em Portugal mas igualmente nos países da lusofonia: Brasil, Angola, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Moçambique e Timor.
Esta nova publicação pretende afirmar-se «como um espaço de reflexão e crítica em torno da realidade literária, através de um conjunto diferenciado de abordagens, umas de cariz jornalístico e outras mais analíticas», como explica Maria João Cantinho. A revista poderá ser encontrada em diversos pontos de venda, como quiosques, lojas de revistas / papelarias ou livrarias.
O primeiro número da Café com Letras inclui duas entrevistas: a Grande Entrevista com a jovem autora e ensaísta Ana Henriques Pato; outra com o prestigiado poeta e ensaísta Manuel Gusmão, que revisita uma tradição de literatura de resistência em Portugal e fala sobre a necessidade de retomar a linguagem como utopia, entre muitos outros temas da sua eleição.
Café com Letras contará também com as secções Crítica/Recensão, Biografia, Eventos, um perfil de um Filósofo e um Dossier temático, que neste primeiro número se intitula “Literatura Portuguesa e Resistência”. Do Dossier constam artigos de Vítor Pena Viçoso, António Cabrita, Pedro Rodrigues, João Céu e Silva, Carlos Brito e Maria João Cabrita.
Na secção da Crítica poderão ler-se textos de Diogo Ramada Curto, Filipa Melo, Ana Raquel Fernandes, Marta Soares, João Oliveira Duarte, entre outros. A Biografia será composta por um texto de João Morales.